Alimentar as massas se tornou um ato revolucionário: coronavírus, o vírus do bolsonarismo e a luta ecocomunista

Assistimos aterrorizados os crimes socioambientais que se multiplicam no Brasil nos governos Temer-Bolsonaro. Num plano mais amplo, para recordar apenas alguns fatos das últimas décadas: assassinato de Chico Mendes e Doroty Stang, massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás, assassinatos de líderes das Ligas Camponesas do PCB e do Nordeste, escalada de assassinatos de indígenas, quilombolas, sem terra e posseiros, crimes das mineradoras em Bento Gonçalves e Brumadinho, derramamento de óleo no Nordeste, incêndios planejados na Amazônia.

O capital, com suas técnicas de manipulação da mente, nos faz lembrar a última fofoca de uma pessoa famosa, e esquecer rapidamente o sentido geral desses crimes humanitários e ambientais. Também nos leva a crer que o colapso socioambiental deve ser resolvido dentro dos marcos da sociedade do capital, “pelos hábitos de consumo dos indivíduos”, sem questionar o enorme poder das corporações transnacionais e do Estado na destruição das condições de existência na terra.

Já temos evidências fortes que houve um golpe no Brasil em 2016. Também existem evidências fortes que houve a prisão política de Lula. E pasmem, a convocação de eleições “democráticas” em 2018, sendo que o adversário principal e possível vencedor da eleição estava no cárcere. Ao que tudo indica, mais do que prender Lula, foi “preso” um projeto político do tipo “social-liberal”.

Nossas classes proprietárias aceitam tudo, menos a repetição de um projeto de reformismo ao estilo Lula. Querem liberdade total para o capital e o fim dos parcos direitos sociais duramente conquistados. Não é por acaso que, aberta uma oportunidade histórica para o “impedimento” em 2016, veio então uma grande avalanche de reformas e destruições de direitos: Pec do fim do mundo, reforma trabalhista, reforma da previdência, mercantilização da educação e da saúde e uma possível desconstituição da constituinte acenada recentemente pelo presidente do Senado.

O novo AI-5 já está aí

Nossa hipótese é que estamos diante de uma nova fase de uma longa contrarrevolução permanente, nos termos de Florestan Fernandes. A 1ª fase da contrarrevolução se deu de 1964 a 1985. Quando achávamos que iríamos redemocratizar o país, nos deram um olé. As diretas já viraram indiretas. A Globo elege Collor em 1989. Não há nenhum acerto de contas com os militares e a contrarrevolução permanente ganha um novo impulso com Fernando Henrique Cardoso. Passamos da ditadura empresarial militar para a ditadura do capital financeiro. Lula declara a cana de açúcar a “salvação da lavoura”, as empreiteiras passam a nadar de braçada, sem deixar de lado os bancos.

A partir dos anos 1960 há uma grande reestruturação do campo. Os militares chamam esse avanço destrutivo do capital de “nova fronteira agrícola” e no caso da Amazônia, “Integrar para não entregar”. Octavio Ianni no livro “A ditadura do grande capital” nos mostra o avanço destrutivo do capital rumo a novas regiões e fronteiras. Mostra também o surgimento de novas corporações no sul e sudeste (abate de porco, frango e boi), além da instalação de grandes corporações transnacionais produtoras de agrotóxicos, adubos sintéticos, tratores e implementos agrícolas. Novas rodovias são criadas, portos, aeroportos, usinas hidrelétricas tendo em vista a criação das condições de produção do grande capital. Ele mostra também a convivência de formas de trabalho “arcaicas” no campo (trabalho análogo ao escravo) e o surgimento de um novo proletariado “rural” ou agroindustrial. Esse processo não foi encerrado no período de “redemocratização”, muito menos nos governos FHC, Lula e Dilma.

Chegamos então a Bolsonaro, o homem de neandertal, nos termos de Paulo Alves de Lima Filho. O bolsonarismo se tornou uma espécie de vírus, mais letal que o coronavírus, pois atinge o cérebro, produz alienação, faz a pessoa reivindicar intervenção militar. Nem o melhor cientista político previa em janeiro de 2018 que Bolsonaro iria ganhar. Na Argentina, um militar que elogia torturadores não poderia ser eleito representante de bairro, muito menos vereador, deputado ou senador. No Brasil, não só é eleito (repito, numa eleição farsesca), mas se torna o grande representante do capital. Nas condições normais de temperatura e pressão, tudo caminhava para o representante sério, frio e ponderado do capital – Geraldo Alckmin – vencer a fajuta eleição de 2018.

 O Brasil se tornou um dos maiores palcos da nova fase da acumulação “primitiva”, baseada no cercamento de novas terras em regiões “virgens” do capital.  Problemas crônicos do Brasil como acesso a terra pelos camponeses, fome, subnutrição, exportação de commodities vão se perpetuando com dramaticidade cada vez maior.

Diante disso, é possível dizer que há um processo de fascistização no Brasil? No campo certamente sim. Acreditamos que o neofascismo no século XXI não irá reproduzir os traços gerais do fascismo e do nazismo europeus. Eliane Brum (2019b) escreveu um importante texto no dia 27/11/2019 no Jornal El Pais. Ela observa que o AI-5 já está em voga, só não vê quem não quer. Para ela, no artigo “O AI-5 já se instala na Amazônia (e nas periferias urbanas)”.

As consequências do coronavírus e os desafios do ecocomunismo

A barbárie promovida pelo capital financeiro tem trazido consequências nefastas para a classe trabalhadora no mundo inteiro. Saqueamento dos fundos públicos, expropriação de casas como na crise de 2008, destruição parcial ou completa do Estado de Bem-estar social na Europa e dos poucos direitos constitucionais no “Estado de mal estar social” na América Latina. Aumento do custo de vida da classe trabalhadora, fim da aposentadoria digna, destruição dos sistemas educacionais e de saúde públicos, enfim, a destruição das condições de reprodução social sob o capitalismo.

A voracidade do capital mundializado, com seu “senado virtual” que decide a alocação dos capitais, não respeita decisões populares, passa por cima dos parlamentos e promove golpes em todos os cantos do mundo. Para citar apenas o caso da América Latina, vimos nos últimos anos prisões políticas de presidentes, impedimentos irregulares e mais recentemente massacres nas rebeliões populares o Equador, Chile, Bolívia, Honduras e Haiti, mostrando toda a crueldade das classes proprietárias.

A produção destrutiva das grandes corporações transnacionais (bancos, seguradoras, mineradoras, empreiteiras, automobilísticas, complexo militar, etc.), alicerçada na reprodução ampliada do capital e na obsolescência programada das mercadorias, gera crimes socioambientais de grande envergadura, como vimos acima, criam cidades insuportáveis, roubam terras e outros recursos estratégicos à nova geopolítica mundial. Além disso, o imperialismo gera guerras de média e baixa intensidade que matam em escala inédita e sem nenhum pudor.

No mundo do trabalho, base de toda produção de valor, combinam-se formas tayloristas-fordistas com as formas do regime de acumulação flexível e, mais recentemente, uberização e outras formas de trabalho análogas à escravidão. Diante disso, superexploração do trabalho, subemprego e desemprego em massa passam a fazer parte da dramática realidade das nações.

Mas a classe trabalhadora não está assistindo de camarote a ofensiva do capital. Uma bandeira, dentre as milhares delas presentes nas manifestantes no Chile, dizia: “Aqui nasceu o neoliberalismo e aqui ele será enterrado”. Se essas bandeiras avançarão para ações anticapital mais amplas, que contestam o modo de produção, ainda não é possível saber, em que pese estar inserida em forte processo de reação contra o neoliberalismo. 

István Mészáros acredita que devemos caminhar não só para além do modelo neoliberal, mas para além do capital. É urgente a construção de um programa de transição no século XXI e a criação de ações práticas coordenadas que apontem para uma “alternativa radical e abrangente” ao sociometabolismo do capital (Mészáros, 2002).

Michel Lowy tem defendido o uso dos termos ecossocialismo ou o ecocomunismo. Num nível menor de abstração, a bandeira da agroecologia deve ser levantada com urgência. A agroecologia defendida por nós se distancia radicalmente das ações do capital e seu “mercado verde”, inclusive impulsionado pelas grandes corporações transnacionais. Se distancia do ecocapitalismo, que tende a ignorar a questão agrária e a estimular ações no campo da “responsabilidade social empresarial”. Se distancia do cooperativismo do capital, que se move em função da reprodução ampliada do capital. Acreditamos que é necessária uma crítica implacável à posse e uso da terra no Brasil, gravadas a ferro e fogo pelo latifúndio e pela superexploração do trabalho, além da produção de commodities para o mercado externo. Este circuito de produção de mercadorias gera fome e subnutrição num país rico em terras e sol. Os quatro séculos de latifúndio não comandam apenas a inserção econômica dependente e associada da nossa burguesia, mas o comando político do nosso subsistema econômico ao sistema capitalista mundializado.

A crise estrutural do capital já vem se arrastando desde 1970. Ela passa por uma nova fase desde 2008. No início de 2020, o capitalismo foi sacudido pelo coronavírus. Nos EUA, já temos 22 milhões de trabalhadores solicitando seguro desemprego. No Brasil o dólar disparou. A pobreza, a fome e a miséria, escondidas nas estatísticas da “sociedade do conhecimento” e do “progresso”, não podem mais ser jogadas para debaixo do pano. Segundo a previsão do Banco Mundial, a crise será maior que a de 1929. Mas a nova fase da crise estrutural do capital e o coronavírus poderão ensinar para a humanidade?

Demos aos capitalistas a chance de alimentar o povo por 500 anos. Ao que tudo indica, como nos mostra Marx, o alimento produzido é veículo de alimentação do capital, para engordar o capital financeiro. Chegou a nossa vez, chegou a hora da classe trabalhadora tomar as rédeas da produção, comercialização e consumo de alimentos tendo em vista a produção de valores de uso.

Nesse sentido, a alimentação da classe trabalhadora do mundo inteiro tornou-se um ato revolucionário. Para isso, será necessária a construção de uma revolução mundial, para além do capital, que unifique as lutas de todos os povos, e dentro dessa revolução, uma revolução alimentar, para produzir alimentos saudáveis e agroecológicos não só para as classes médias e algumas pequenas parcelas da classe trabalhadora como atualmente, mas para a classe trabalhadora de todos os cantos da terra.

No livro “Mundo do trabalho associado e embriões de educação para além do capital” (Novaes e outros, 2018, Editora Lutas anticapital) retratamos as lutas de resistência das trabalhadoras e trabalhadores camponeses, o prenúncio de formas alternativas de trabalho, educação e de vida, que poderão desembocar numa sociedade para além do capital. Surgidas das entranhas do sociometabolismo do capital, as novas formas de produção e de vida tem um enorme potencial emancipatório, que podem avançar, mas também podem rapidamente se esgotar, caso os trabalhadores do mundo inteiro não saiam da defensiva. Frente ao avanço destrutivo do capital do neandertal Bolsonaro, que destrói em massa populações e países, o lema “ecocomunismo ou barbárie” ganha cada vez mais centralidade. Alimentar as massas tornou-se um ato revolucionário.

Foto: Amanda Perobelli/Reuters.

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