Carlos Alberto, um cidadão de bem

Créditos da imagem: https://veja.abril.com.br/

Carlos Alberto descobriu o WhatsApp pouco antes das eleições de 2018. Foi adicionado ao grupão “Direita Raiz” onde encontrou outros dos seus. Ali circulavam coisas como: “os negros é que são racistas”, “direitos humanos são para humanos direitos”, “a esquerda está querendo acabar com a família”, dentre outros despropérios, todos balizados por um ódio ao inimigo que ele e seus amigos chamavam de esquerdistas, comunistas e gayzistas.

Carlos atuou ativamente nas redes durante as eleições. Acreditou na mamadeira de piroca e no kit gay, só porque o “mito” – é assim que ele o chama – dizia que era verdade. Vibrou triunfante quando o “mito” foi eleito presidente do Brasil. Fez festa, carreata e jurava que o Brasil iria melhorar porque a “corja esquerdista” e o “Foro de São Paulo” – é dessa maneira que ele entende todos os outros presidentes do Brasil, até mesmo FHC e Temer – perderam.

Veio o primeiro ano do governo do “mito” e nosso personagem enalteceu-se quando as reformas foram passando, mesmo sem saber muito bem o que elas significavam. Carlos nunca fez parte dos super ricos do Brasil, mas jurava que, por ter um carro e casa própria, estava mais perto destes do que dos empregados de sua pequena empresa. Para ele, os trabalhadores no Brasil tem muitos direitos e é preciso “acabar com isso aí” em nome da segurança jurídica, termo que ele utilizava nas redes sociais e nas conversas de boteco com os amigos, mas que não sabia muito bem explicar.

Em 2019 a economia não foi muito bem, mas Carlos dizia que isso era tudo culpa da “mídia esquerdista” e do Congresso, para ele ambos “não deixavam o homem trabalhar”. Quando esse argumento não funcionava o álibi de Carlos era sempre dizer: “e o PT, hein?”. Se a coisa descambava para o bate boca, ele dizia: você apoia esses “corruPTos”? Carlos adorava usar esse termo dito por muitos como Reinaldo Azevedo, jornalista que ele adorava, mas que agora considerava inimigo e esquerdista, pois argumentava que passou a defender o “molusco” ou “luladrão”.

Em 2020 veio a pandemia e as informações que passaram a circular no grupão de WhatsApp eram sobre o vírus criado em laboratório ou sobre a ineficácia do uso de máscaras. Como lá tudo era tratado como uma “gripezinha”, todos se indignaram quando a polícia prendeu a mulher em Araraquara que estava sem máscara. Consideraram-na um símbolo de resistência contra as iniciativas que julgavam serem autoritárias por parte dos esquerdistas como, por exemplo, João Dória. Para Carlos as coisas eram difíceis, pois em 2018 ele apertou 17 e 45 nas urnas para eleger o “BolsoDoria” contra a esquerda. Mas, logo ele encontrou uma resposta para justificar seu voto em Dória: “o Doriana traiu o mito”.

Carlos considerava uma ação de resistência andar nas ruas sem máscaras e só as usava quando obrigado a entrar nos estabelecimentos. Dentro destes, fazia questão de dizer na fila do pão e do açougue o quanto todos estavam sendo enganados pelo Dória e pelo Partido Comunista da China que, segundo ele, criou o vírus. Vibrou entusiasmado quando o “mito” levou o Carioca para fazer piada sobre o PIB e achou o máximo quando ele respondeu aos jornalistas sobre o número de mortes na pandemia: “Eu não sou coveiro”. Mas, nada o agradou mais do que ver o próprio “mito” indicar a cloroquina como o tratamento adequado para enfrentar a Covid-19. Desde então, Carlos divulga todos os dias para os seus contatos os vídeos, textos e memes que ele encontra nos grupos como o “Direita Raiz”. Ele sente que está contribuindo para combater a “desinformação da mídia esquerdista”.

Desde o início da pandemia participou de todas as carreatas pela reabertura do comércio e chegou a ir até Brasília para pedir o fechamento do Congresso e do STF, “bando de esquerdistas e comunistas que não querem o bem da nação”, esbravejava. Se emocionou ao ver o “mito” aglomerando em plena pandemia no ato em que eles pediam a “Intervenção Militar Constitucional” que Carlos jura ser a melhor saída para o Brasil. Foi contra o auxílio emergencial da esquerda, pois o Brasil estava “quebrado” (na sua visão por culpa do PT), mas se surpreendeu e passou a apoiá-lo depois que o “mito” anunciou sua implementação que ele jurava ser obra exclusiva do presidente. Foi aí que ele resolveu escrever para o grupo da família, onde por vezes encontrava alguma resistência de algum parente “esquerdista”, dizendo “tá vendo o que o mito fez pelos mais pobres?”.

De novembro de 2020 até os dias atuais, Carlos está empenhado em duas pautas políticas: 1) contra a “Vachina”; 2) pelo Fora Dória. Todos os dias compartilha seu “medo” de tomar vacina e vídeos com efeitos colaterais destas. Segundo o vídeo compartilhado no grupo “Direita Raiz” que ele viu, a enfermeira Tifanny Dover morreu nos Estados Unidos após tomar a vacina. Ele compartilhou o vídeo com todos os seus contatos, mas ao saber que a notícia era falsa não quis se retratar, pois desconfiava da fonte da “mídia esquerdista” que um dos seus parentes próximos mandou. Para este, Carlos respondeu: “você acredita nessa mídia comunista?” e nunca se desculpou ou admitiu ter compartilhado conteúdo falso.

Já o Dória, aquele em quem votou em 2018, ele simplesmente odeia. Não pode nem ouvir falar neste nome que já esbraveja: “esse Doriana está articulado com o Partido Comunista da China para fraudar as eleições de 2022”. Quando ele soube que a vacina do Butantã era de uma empresa chinesa sentiu que havia se confirmado todas as suas preocupações. Desde então, passou a escrever para todos sobre os perigos da “VaChina”, que é como ele a chama.

Quando saíram os resultados de eficácia dessa vacina, acima daquilo que pede a OMS, Carlos fez piada: “eu não tomo a VaChina do Doriana”. Seus “argumentos” se confirmaram ainda mais quando viu a diferença nos dados e assim escreveu no grupão: “segunda-feira eram 78% de eficácia e hoje são só 50,4%, eu não confio”. Em tom de piada, acrescentou: “se um paraquedas tivesse 50,38% de eficácia, você daria um salto com ele?”.

Para Carlos, pouco importava se esse índice fosse aceito pelos padrões científicos internacionais. Incapaz de combater cientificamente a eficácia da vacina, Carlos passou a fazer comparações como a do paraquedas e dizer que ninguém o iria obrigar a tomar a “VaChina”. Nem mesmo as afirmações de cientistas atestando a eficácia da vacina e sua importância e urgência para a saúde pública, num país em que mais 200 mil pessoas morreram de Covid-19, convenceram Carlos. Dedicou o seu dia para “informar” seus contatos sobre a “ineficácia” da “VaChina” argumento que ele divulgou porque jamais confiaria no Partido Comunista da China, no Doriana, na mídia “esquerdista” e na “comunista” OMS, mesmo que ele nunca tenha se interessado antes da pandemia por saber como funciona uma vacina e sua eficácia.

E até o momento, Carlos continua irredutível. Segue disseminando as notícias que ele julga serem a “verdade” e desacredita a ciência. Tem orgulho de ser negacionista e diz para todos, que o pastor Davi Góes tem razão. Carlos faz como ele e “profetiza” repetindo suas palavras: “muitas pessoas vão morrer de câncer, achando que foi câncer porque comeu alguma coisa, porque foi hereditário, porque tem família, por causa de um tumor, mas na verdade foi por causa da vacina. Depois que essa substância entrar no nosso organismo vai atingir o nosso DNA, um cientista francês disse que até HIV tem dentro dela”. займ на карту микрозаймы онлайн

Fernando Mendonça Heck

Sobre Fernando Mendonça Heck

Professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Coordenador do Centro de Estudos sobre Técnica, Trabalho e Natureza (CETTRAN) e membro da Rede CEGeT de Pesquisadores. Militante da Consulta Popular.
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