É PRECISO FORTALECER A (RE)EXISTÊNCIA NA DEFESA DOS DIREITOS DOS TRABALHADORES

Em abril último estávamos numa mesa de bar em Goiânia, Adriano Rodrigues Oliveira, Marcelo Mendonça e eu, numa reflexão sobre os rumos dos ataques promovidos pelo atual governo aos direitos dos Trabalhadores. A discussão seguia regada a uma boa cerveja quando a chamada de um telejornal informou da chacina cometida contra Trabalhadores Rurais ocorrida em Mato Grosso. De pronto pensei que seria na região de Colniza localizada no norte do Estado. Paraíso da grilagem após 2000, o norte do Mato Grosso destaca-se como uma região de intensos conflitos agrários em função da quantidade de terras públicas ocupadas especialmente por indígenas e camponeses, e que tem despertado a cobiça do capital pela sua fertilidade natural e a riqueza do subsolo. A chamada do telejornal criou um clima de aflição entre os três experientes Geógrafos, e nos fizeram mudar o rumo da prosa, passando a refletir sobre os conflitos agrários recentes, as prisões e mortes de lideranças dos Trabalhadores da Terra e a criminalização dos movimentos sociais.

Em 24 de maio último, menos de um mês depois, outro atentado causou a morte de dez Trabalhadores numa região tradicional de conflitos agrários no sul do Pará. Logo que a notícia veio a público surgiram também os discursos fascistas em apoio aos Policiais e ao Estado envolvidos nos assassinatos. Por outro lado, algumas pessoas conhecedoras da região a exemplo do Militante dos Direitos Humanos do Pará, advogado Paulo Fonteles Filho[1] deixava claro em seus textos que se tratava de uma execução sumária levada a cabo pelo Estado através da policia militar. A seqüência das investigações não deixou dúvida: o estado matou mais dez Trabalhadores e Trabalhadoras em proteção aos latifundiários e mineradores da região.

Na ocasião da prisão dos policiais envolvidos no massacre de Pau D`arco (07/07/2017), estava no sul do Pará e presenciei a covardia dos latifundiários frente aos que lutam pelo direito a terra. Os mortos e seus pares que ainda resistem são tratados pela imprensa local (de propriedade dos latifundiários e mineradores), como bandidos, invasores e terroristas; ao passo que santificam pessoas que com seus discursos e práticas fascistas acobertam os crimes cometidos por essa gente. Na região onde também ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás em 1996, os maiores inimigos[2] da elite são os Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra e Atingidos pela Mineração.  Os focos de (Re)Existência estão espalhados em Acampamentos, Assentamentos da Reforma Agrária, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e nas Universidades Públicas onde “alguns” Professores e Estudantes “ainda” apoiam e participam da luta contra a pilhagem territorial promovida pelo capital.

A intensificação da violência no campo em 2016/2017 está diretamente ligada às mudanças políticas expressas no golpe efetivado em nome das reformas elitistas e em discursos fascistas, a exemplo dos proferidos em vários momentos por pessoas públicas como o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Candidato a Presidência da República em 2018, Bolsonaro tem no assassinato de Trabalhadores, em especial dos que lutam pela posse da terra, sua principal bandeira de governo. Em todas as oportunidades em que lhe dão plateia e palco ele afirma que promoverá o armamento dos “Senhores Rurais” para combater (assassinar) os Trabalhadores da Terra.  O pior de tudo isso é que seu discurso está sendo aceito até entre “Trabalhadores Assentados da Reforma Agrária”, no Sul do Pará.

Nesse cenário de ódio e desilusão em que predomina a espoliação promovida pelo latifúndio e a mineração contra os excluídos do pseudodesenvolvimento capitalista, as esperanças renascem com a certeza de que não devemos aceitar pacificamente o retrocesso consubstanciado na retirada dos direitos dos trabalhadores. Fortalecer a(Re)Existência frente às investidas covardes conduzidas pelo capitalismo é fazer a opção de caminhar junto aos oprimidos e excluídos na luta desigual pela existência. Nesse sentido os mártires de Colniza e Pau D`arco nos ensinam que o momento de lutar é agora e sempre.

Enfim, da mesma forma que renascem as Castanheiras na paisagem dominada pelas pastagens no sul do Pará, devemos também fortalecer nossas ações em defesa dos direitos dos Trabalhadores. E nessa guerra alguns “tombarão pelo caminho, mas suas ideias permanecerão naqueles que seguem na luta” (Che Guevara)!!!

PS: enquanto esse texto estava sendo escrito, fui informado pelo Professor Evandro Medeiros, da Universidade Federal do Sul do Pará (UNIFESSPA), que o Acampamento Hugo Chaves do MST localizado no latifúndio Nossa Senhora Aparecida, em Marabá, está sob fogo cruzado de pistoleiros a serviço dos fazendeiros da região. Nesse momento difícil gostaria que esse texto servisse também para denunciar mais essa barbárie cometida pelos latifundiários devidamente apoiados pelo Governo Golpista. A luta continua companheiros, nem que seja de longe via redes sociais.

[1] O Advogado Paulo Fonteles Filho teve seu pai o também Advogado e Ex Deputado Estadual Paulo Fonteles assassinado em 1987 em Belém,por pistoleiros em função de sua atuação em defesa dos Trabalhadores do Bico do Papagaio no antigo norte de Goiás e sul do Pará. Na mesma década foram assassinados a família Canuto (sindicalistas em Rio Maria), o também Sindicalista Gringo e o Padre Josimo, dentre outros ligados aos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e a Comissão Pastoral da Terra na região.

[2] O Historiador e Geógrafo Romualdo Pessoa, em “Araguaia: depois da guerrilha outra guerra (2014), afirma que “depois da Guerrilha do Araguaia outra guerra se disseminou na Amazônia Paraense, mas ela faz parte de um mesmo conflito e, como sempre, nos objetivos que o move, o povo pobre é vitimado e as conseqüências geram mais riquezas para as camadas abastadas e proprietárias dos meios de produção.” No caso específico latifundiários e mineradoras.Aos que desejam compreender as raízes Históricas e Geográficas dos conflitos agrários no Sul da Amazônia, ou seja, nos Estados do Pará, Mato Grosso e Tocantins , recomendo a leitura da publicação citada.

Sobre o Autor: Crispim Santos é Cerradeiro da Chapada dos Veadeiros, Técnico Agrícola e Geógrafo. Iniciou sua militância política nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no conturbado Norte de Goiás na década de 1980. Ainda criança indignava-se ao ouvir pelo rádio as notícias de assassinatos de Trabalhadores na luta pela terra. Desde 1993 ocupa o Cargo de Agente de Defesa Agropecuária em Goiás, além de Professor de Geografia na Secretaria da Educação do Tocantins. É membro do Grupo de Pesquisa Trabalho, Políticas Públicas e Movimentos Sociais – TRAPPU (UFG/CNPq) e Centro de Estudos da Geografia do Trabalho – CeGET (CNPq/UNESP Presidente Prudente).

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