Em tempos de coronavírus, os trabalhadores rurais são essenciais

Muitas são as notícias, vinculadas em diferentes meios de comunicação, sobre os trabalhadores em serviços essenciais para garantirem a estrutura sanitária e alimentar nestes tempos sombrios causados pelo novo coranavírus. Ainda que tais informações sejam de extrema relevância, vale destacar que uma categoria ausente desta lista de serviços essenciais é a dos/as trabalhadores/as rurais. São elas e eles os responsáveis por levarem os alimentos às feiras, sobretudo, os provenientes da agricultura familiar. Há que se considerar também que outros alimentos são provenientes da agricultura que emprega assalariados/as. Estariam nesta lista, frutas, como a laranja, manga, maçãs, além de legumes, ovos, cebola, alho, carnes (bovina, aves) etc. O que se constata é que tais trabalhadores são obnubilados, negados e considerados inexistentes. Num país de commodities, que chama a atenção do mundo pelos gigantescos volumes de produção de soja, açúcar, carnes, sucos de laranja, isto pode causar certa estranheza.

A fim de retirar a névoa que recai sobre os homens e mulheres que labutam na terra, tomarei como exemplos, as mulheres empregadas na colheita da cebola e aquelas que trabalham nas granjas de ovos. Uma visão naturalizada consideraria tais tarefas como leves, porque desempenhada por mulheres. Bem ao contrário, é o que minhas pesquisas no estado de São Paulo revelam ao acompanhar estas trabalhadoras em vários campos.

No caso da colheita das cebolas, primeiramente, os tratores dirigidos por homens as removem da terra. Em seguida, as mulheres iniciam a segunda fase deste processo que combina o uso de máquinas (conduzidas por homens) e o trabalho manual, executado pelas mulheres. No início da jornada, trabalham agachadas. A tarefa consiste, em, de posse de um estilete, ir retirando os talos maiores da cebola e depositando-as em montes, que, em seguida, serão recolhidos também pelos tratores. Com o passar das horas, além do cansaço, do calor provocado pelas altas temperaturas, elas ficam na posição sentadas sobre a terra. As dores da coluna aumentam, além das mãos, punhos e dedos. Há também muitas queixas relacionadas aos problemas na bexiga e vagina, provavelmente, provocados pela “quentura” da terra, segundo suas palavras. O salário é pago por produção, o que contribui para exigir maior esforço e “ir até onde o corpo aguentar”.

No que se refere á produção de ovos, a situação laboral é a seguinte, tomando o caso de uma granja que produz galinhas poedeiras. Em geral, as granjas comportam milhares de aves. Estão situadas longe dos centros urbanos, em razão dos odores causados pelos excrementos, penas, sangue, restos de ração, inseticidas, medicamentos, vacinas, antibióticos, hormônios, que vão se acumulando durante o período necessário para a produção, segundo avaliação criteriosa dos técnicos e agrônomos. Tais resíduos vão se misturando à serragem do chão da granja.

Sigamos uma destas trabalhadoras, Lourdes (nome fictício).  Logo pela manhã, após vestir-se adequadamente para entrar na granja com roupas esterilizadas para evitar a transmissão de doenças às aves, e receber as instruções dos técnicos sobre as tarefas do dia, ela adentra a granja. No início são os milhares de pintainhos (de apenas três dias de vida) que ali estão. É um momento em que o emprego das mulheres é mais justificado pelas qualidades naturalizadas, tais como, afeição, cuidado. Segundo Lourdes, os pintainhos não estão com as mães, por isso, é necessário trata-los com muito carinho, dar-lhes proteção, regular bem a temperatura para aquecê-los. São frágeis. Ela mesma afirma que os homens são brutos e chegam até mesmo a chutá-los, porque eles se enervam com os piados constantes. É o momento do exercício da maternagem. Ela passa a considera-los como seus filhos. À medida que vão crescendo, ela se encarrega de vaciná-los, cortar seus bicos para que eles não se firam uns aos outros. Após alguns meses, há a seleção das fêmeas que serão poedeiras. Segundo o relato de Lourdes, este é um período difícil porque as galinhas ficam no escuro durante cinco meses, não podendo ganhar muito peso, portanto, comem pouco, o que aumenta o estresse. Muitas chegam até a comer umas às outras. Há ainda outra informação. No período menstrual, as mulheres não podem adentrar a granja. Segundo Lourdes, as galinhas sentem o cheiro do sangue e, nestes casos, elas voam em conjunto sobre elas, podendo, até mesmo, feri-las.

Na granja onde Lourdes trabalha são oito mil aves. Assim que adentra a granja, as galinhas se desesperam e vêm em sua direção em busca da comida. Apenas um facho de luz muito fraca no fundo da granja lhe serve como guia. Esta tarefa se repete diariamente. Após os cinco meses no escuro, as galinhas estão prontas para botar ovos, incessantemente, até que, já esgotadas, são encaminhadas ao abate. Quanto a Lourdes, ela, em seguida à saída do “lote”, ao lado dos demais trabalhadores, é destinada à limpeza da granja. Todo o material orgânico e inorgânico acumulado é removido e vendido como fertilizantes (cama de frango)[1]. Em seguida, outro “lote” de pintainhos chega à granja e o processo se reinicia. Segundo Lourdes, o pior é o mau cheiro, que fica impregnado no corpo, causando muitas dores de cabeça, vômitos e inapetência. Ainda: o sofrimento das galinhas. Elas “choram”. Para ela, é impossível ficar alheia a isso. Por esta razão, jamais consome ovos ou carnes de aves produzidos em granjas.

A descrição das duas tarefas laborais revela a violência embutida tanto em relação às trabalhadoras, quanto em relação às aves. O estado de São Paulo é um dos maiores produtores de ovos do País. A produção de frangos ganha cada vez mais novos mercados exportadores.

A invisibilidade prevalecente em relação aos/às trabalhadores/as rurais é causada por inúmeros fatores. O mais importante deles se reporta à ideologia do chamado agronegócio, setor responsável por 25% do PIB do país. Trata-se de um setor modernizado, com emprego de tecnologias avançadas, resultantes de um significativo avanço científico, com taxas de produtividade cada vez mais crescentes. Esta é a face visível, a que os meios de comunicação exibem em seus diferentes programas de marketing. No entanto, a outra face, a do trabalho, é ofuscada.

Girando esta moeda, é possível perceber as duas faces que, embora, diferentes, fazem parte do mesmo processo. Esconder, negar quem trabalha no campo é uma maneira de justificar ideologia do agro brasileiro, considerado um dos mais exitosos do mundo.

Nestes tempos de coranavírus, há um apelo, justificável, para o isolamento social. Os trabalhadores rurais, do mesmo modo que tantos outros urbanos, não podem cumprir esta norma. Eles são essenciais à produção dos alimentos que chegam às nossas mesas. No entanto, além de não serem considerados essenciais, são negados. Resta-nos refletir sobre estas razões. As duas descrições acima nos alertam para várias questões: as injustiças sociais, o não direitos, a não cidadania e também à negação do humano. Do mesmo modo que os “lotes” de aves são descartados, remanejados, abatidos, as pessoas, que labutam na terra são substituídas por outras e ou descartadas quando suas forças físicas “não aguentam mais”. Pior ainda. A sociedade da qual fazem parte, sequer os vê, sequer sabe que existem. Em tempos de coronavírus, alguém se pergunta de que mãos advêm a cebola ou os ovos que consomem?

Se os mínimos direitos lhe são negados, como imaginar se estão protegidos por máscaras, luvas e mantendo o distanciamento social?  Deixo ao/à leitor/a faculdade de resposta a esta  questão. 

São Carlos, 22 de abril de 2020

[1] Os resíduos da produção das aves, em razão de sua composição, são utilizados como fertilizantes. No entanto, alguns pecuaristas chegaram a emprega-los como ração para o gado, em razão dos preços baixos. Esta prática, sem dúvida, põe em risco a segurança alimentar da população que consome leite e seus derivados, além da carne. Tal prática, associada à chamada doença da vaca louca, é proibida.

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Sobre Maria Aparecida Moraes Silva

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