O FENÔMENO BOLSONARO E O NOVO OVO DA SERPENTE

Sou apaixonado por História e, nessa condição, sempre me causou espanto perceber como, em determinados períodos conturbados como os de ascensão de regimes totalitários, pessoas comuns e frequentemente religiosas passaram a apoiar medidas de exceção e a adoção da violência como forma legítima de “consertar as coisas”, quase sempre tendo minorias sob a mira. Há pelo menos três elementos comuns e invariáveis em todos eles: seu florescimento acontece em contextos de crise; sua força provém da invenção (ou supervalorização do poder) de um inimigo externo, na luta contra o qual todo sacrifício se justifica, inclusive a renúncia de direitos e da própria liberdade; e é personificado por um líder carismático, espécie de Messias político. Soa quase como um clichê mencionar o Terceiro Heich de Hitler na Alemanha e o Fascismo de Mussolini na Itália dos anos 1930, como exemplos. Jamais imaginei, no entanto, que teria a infelicidade de acompanhar a construção de semelhante fenômeno na condição de testemunha ocular.   

Depois do último domingo (07/10), qualquer um que, assim como eu, simpatize com valores progressistas e sonhe com a construção de uma sociedade mais democrática, justa e plural, deve estar sendo acometido pelas sensações de perplexidade, impotência, descrença e tristeza que sinto neste momento.

A existência de um candidato que há anos vem destilando um discurso de ódio, misto de racismo, homofobia, xenofobia, misoginia e incitação à violência, tendo o conservadorismo político e o liberalismo econômico por pano de fundo, não deve nos assustar tanto como as manifestações apaixonadas de tantos conhecidos, amigos e até familiares, embaladas pelo lema batido de “Deus, Pátria e Família” – neste caso, em sua versão repaginada, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Nem mesmo homenagens a torturadores ou as declarações sobre a necessidade de escolher entre emprego e direito são capazes de abalar a fé dessas pessoas nas boas intenções do seu Messias. A esmagadora maioria delas sequer consegue perceber os verdadeiros interesses econômicos e políticos por trás da campanha moralista que tem à frente um homem branco, de classe média e militar da reserva, cuja longa carreira política, além de marcada por todo tipo de declaração anacrônica e vexatória, demonstra uma notável incompetência (é sempre bom lembrar que apenas dois, dentre os cento e setenta e um projetos por ele propostos foram aprovados no Parlamento!).   

Não tenho dúvidas, caro(a) leitor(a), Bolsonaro é a personificação de ideias que sempre estiveram por aí, entre nós. Quem nunca se chateou com afirmações análogas as do candidato em almoços de família e rodas de conversa entre amigos, antes mesmo dele se tornar conhecido e verbalizá-las? Não obstante, nas conversas de que tenho participado e sondando as redes sociais noto um aspecto curioso, neste caso específico: há muita gente decente e bem intencionada apoiando abertamente suas sandices em nome da derrota do petismo e do recuo da “ameaça comunista” por ele representada. Sim, é isso mesmo, acredita-se piamente que, em pleno século XXI, o PT quer transformar o Brasil num país “comunista” – e sabe-se lá que diabo essa palavra significa para essas pessoas – e o principal, doutrinar nossas crianças e jovens à prática da “imoralidade sexual”. E tem mais, segundo essa interpretação tão distante da realidade quanto o céu está da terra, todos os partidos políticos (exceto o PSL), a grande mídia e os nossos mais destacados artistas e intelectuais estariam comprometidos com o mesmo projeto “marxista” (outro termo de uso livre adotado por gente que jamais se deu ao trabalho de ler uma única linha escrita por Marx) de doutrinação em massa. Não, estimado(a) leitor(a), qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência

Ignora-se completamente, por exemplo, os fatos de que os governos do PT e seus representantes foram incansavelmente bombardeados tanto pela grande mídia (GloboBandEstadãoFolha de São PauloVejaIsto é e congêneres) quanto por parte significativa da intelectualidade e militância de Esquerda. Ignora-se igualmente que foi durante o Governo Lula (2003-2010) que o capitalismo brasileiro experimentou sua mais vigorosa injeção de ânimo, desde o fim do chamado Milagre Econômico (1968-1973). Por fim, fecha-se os olhos para a ameaça autoritária/antidemocrática contida no fenômeno Bolsonaro, denunciada não apenas pela esquerda brasileira e latino-americana, como também pelos principais veículos de imprensa da direita mundial (veja-se, por exemplo, a capa do The Economist de 20 de setembro de 2018, disponível em https://www.economist.com/leaders/2018/09/20/jair-bolsonaro-latin-americas-latest-menace).   

Eis aí um excelente exemplo de como trabalha a verdadeira ideologia, simplificando a realidade até caber num molde maniqueísta de acordo com o qual existem apenas dois lados: o dos “cidadãos de bem” e o dos “esquerdopatas comunistas que querem acabar com a Pátria e a família”. Diante disso, só me resta dar razão uma vez mais a Edmund Burke, quando disse que um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.

As perdas sofridas pelo povo brasileiro, especialmente pelos(as) trabalhadores(as), foram incalculáveis nestes pouco mais de dois anos do governo golpista e ilegítimo de Michel Temer. Mas Bolsonaro parece nos indicar que o fundo do poço está ainda muito distante de ser alcançado. 

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Guilherme Marini

Sobre Guilherme Marini

Docente do Programa de Pós-Graduação - Mestrado Profissional em Geografia da FCT/UNESP/Campus de Presidente Prudente-SP. Membro do CEGeT e do CETAS e coordenador do Blog do Otim.
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