O István Mészáros que conheci

Devo ter ouvido o nome do filósofo húngaro pela primeira vez durante as aulas do meu primeiro ano de graduação em Geografia, na disciplina do meu futuro orientador da iniciação científica ao doutorado, Prof. Marcelo Dornelis Carvalhal. Confesso que não foi fácil, a primeira leitura não deu para compreender muita coisa (lembro de ser um fragmento do livro Para Além do Capital) e fiquei seriamente frustrado por isso.

Imagine só, todos aqueles conceitos “mediações de primeira e segunda ordem”, “sociometabolismo do capital”, “incontrolabilidade”, “irreformabilidade”, “igualdade substantiva” enfim, as dificuldades iniciais foram imensas. Com o passar do tempo e admitindo que seria impossível adentrar às discussões do CEGeT sem estudar Mészáros fui me familiarizando com a obra. As dificuldades iniciais foram superadas, os conceitos tonaram-se mais palatáveis, porém a abrangência teórica e política dos seus escritos me causaram imensa admiração. Lembro-me de ler as críticas à sociedade “pós-capitalista” soviética e todas as ácidas e irônicas observações de Mészáros sobre o stalinismo e sentir-me “em parafuso”. Para mim, um estudante dos anos iniciais do curso de Geografia, a única coisa que havia ouvido falar sobre socialismo e comunismo versava sobre Cuba, Coreia do Norte e União Soviética e não fazia nenhum sentido, naquele momento, ver um autor socialista criticando o “socialismo real”. Minha ideia de “socialismo” era aquela, bastante comum nos tempos sombrios atuais, de uma sociedade que não dá certo, mesmo sem nunca ter lido nada sobre o assunto e com completo desconhecimento da obra marxiana e dos(as) marxistas. Por isso, ver um autor socialista criticar a União Soviética para minha ingênua concepção daquele tempo era algo “bizarro”.

Ainda bem que mudei e resolvi estudar e foi aí que me encantei com os escritos de Mészáros que, indubitavelmente, me levaram à Marx e a Lukács. Aquela noção inicial e ingênua sobre o socialismo foi superada e, obviamente, passou a fazer todo sentido compreender, por exemplo, a União Soviética como uma experiência histórica com contradições. Sobre as apostas da União Soviética, Mészáros assim escreveu em Para Além do Capital: “como estrutura de comando desse novo gênero de controle sociometabólico, o Partido teria de pairar acima de todos como regulador da extração politicamente compulsória do trabalho excedente, com todos os seus corolários culturais/ideológicos. Com isso, o Estado foi reforçado e, mais do que nunca, centralizado na forma de Partido-Estado, em vez de dar início ao próprio “encolhimento”, conforme previsto no projeto socialista original” (MÉSZÁROS, 2002, p.81).

Ao passo que essas críticas passaram a fazer sentido passei a me perguntar os motivos pelos quais Mészáros, mesmo assim, não abandonava a defesa do socialismo. Diferentemente de outros(as) autores(as) que estava a ler em algumas disciplinas da graduação e que abdicavam de Marx com críticas centradas ao socialismo soviético, Mészáros seguia firme na defesa da revolução socialista. Decidi seguir a mesma trilha e compreender que é imprescindível uma alternativa à sociedade do capital e que se não for genuinamente centrada na igualdade substantiva, portanto socialista, não haverá possibilidade para a humanidade. Foi nesse período que conheci a frase de Mészáros em adendo à outra formulada por Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou Barbárie” a qual ele diz, “Barbárie se tivermos sorte”. Afinal de contas, um mundo “globalizado” com crescente desemprego estrutural e baseado numa “democracia-liberal” que se centra no complexo industrial-militar, cujo exemplo mais marcante é o dos Estados Unidos, não pode ser outra coisa senão um exemplo de que as coisas vão muito mal. Tais características são parte daquilo que Mészáros chama de tendências destrutivas e que, evidentemente, não podem ser resolvidas por dentro da própria ordem do capital.

Por isso, a igualdade substantiva ou a ideia original de Marx “a sociedade dos produtores livremente associados”, continuam vivas em Mészáros e como um projeto real e necessário para o movimento do trabalho como antagonista estrutural do capital. Se assim não ocorrer realmente teremos sorte se vivermos na bárbarie, tendo em vista os potenciais autodestrutivos do sistema do capital.

Certamente, ainda não consegui compreender a totalidade do pensamento de Mészáros e não me tornei nenhum expert na sua obra, tampouco reivindico para mim a interpretação correta e coerente do legado deste grandioso pensador. Neste pequeno texto quero apenas ressaltar a importância que o filósofo húngaro teve para minha vida acadêmica e militante, o que não é pouco, pelo menos para mim. O que posso dizer é que desde os primeiros contatos com os textos de Mészáros, quando pouco entendia o que o autor queria dizer, pude avançar um pouco mais para afirmar que hoje procuro seguir pela trilha que ele e tantos(as) outros(as) deixaram como legado. Isso significa que ele se tornou um referencial para mim e continuará sendo.

Por esse motivo gostaria apenas de finalizar esse texto com uma das passagens que, ao meu ver, é marcante e indica o caminho que devemos seguir para criar uma sociedade verdadeiramente solidária e baseada na igualdade substantiva: “dada a urgência histórica do nosso tempo histórico, apenas a redefinição mais consistente e radical dos objetivos transformadores podem apresentar alguma esperança de sucesso. A alternativa hegemônica ao domínio do capital implica a necessidade de uma transformação revolucionária irreversível.”

István Mészáros: presente, presente, presente!

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Fernando Mendonça Heck

Sobre Fernando Mendonça Heck

Professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Coordenador do Centro de Estudos sobre Técnica, Trabalho e Natureza (CETTRAN) e membro da Rede CEGeT de Pesquisadores. Militante da Consulta Popular.
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