O novo coronavírus no Paraná e os frigoríficos como centros de propagação

Fernando Mendonça Heck – IFSP, Tupã-SP

Lindberg Nascimento Júnior – UFSC, Florianópolis-SC

*Texto produzido pelos autores a partir de parecer técnico emitido no mês de junho para o Ministério Público do Trabalho (MPT) do estado do Paraná.

Introdução

O novo Coronavírus (SARS-CoV-2) é considerado a causa da pandemia relacionada a Covid-19 que, até 29 de julho de 2020, havia registrado mais de 16.7 milhões de casos confirmados e 651 mil mortes em todo o mundo (HOEK et al., 2004; WHO, 2020).

Esse caráter, associado à maior aceleração e interligação entre os lugares, verificada nas condições espaciais de um mundo globalizado, é interpretado a partir da importância das infraestruturas de mobilidade, como transporte aéreo, os portos internacionais e as malhas rodoviárias, que se tornam fatores fundamentais para a proliferação e propagação do vírus (GUIMARÃES e SPOSITO, 2020).

No território brasileiro, a história natural da Covid-19 se iniciou com a chegada do vetor humano, via transporte aéreo, em seguida, tornou mais suscetíveis as populações residentes na maior metrópole do Hemisfério Sul, e atualmente tem se interiorizado por todo o país movimentado pela rede urbana-rodoviária (GUIMARÃES e SPOSITO, 2020), e na Região Sul em particular, também pela centralidade de frigoríficos (HECK et al., 2020).

Neste trabalho, apresentamos uma discussão sobre a difusão espacial da Covid-19 no estado do Paraná, ampliando o debate sobre o arranjo organizado pela interiorização da doença a partir dos territórios da degradação do trabalho.

 

A covid-19 no estado do Paraná e o setor de frigoríficos

No estado do Paraná, a primeira interpretação da difusão espacial da Covid-19 apresenta o caráter urbano-rodoviário como já se tem verificado em diversos estados e regiões do Brasil (Radar COVID-19; NASCIMENTO JR. et al., 2020), e pode ser visualizado a partir da distribuição no território, apresentada na Figura 1.

Os dez municípios com o maior número de casos da COVID-19 em 11 de junho de 2020 foram: Curitiba (1541), Cascavel (930), Londrina (752), Maringá (319), Toledo (190), Cornélio Procópio (185), Cianorte (179), São José dos Pinhais (175), Pinhais (146) e Foz do Iguaçu (136) (Figura 1).

A observação destes dados explicita que a análise da disseminação espacial da Covid-19 não pode ser realizada utilizando apenas o quantitativo populacional de cada município, uma vez que, os cinco primeiros municípios em porte populacional apresentam valores distintos, e que por isso, pode-se afirmar que o Paraná já se encontra na fase de interiorização da doença, com uma parte do processo de difusão espacial da Covid-19.

Figura 1 – Distribuição espacial dos casos confirmados da COVID-19 no Paraná

Neste contexto, o estado do Paraná tem apresentado coeficientes de incidência – CI (medida para avaliar quantidade de casos a 100 mil habitantes por município, obtida pela razão entre os casos confirmados e a população residente) bastante significativos. A incidência da doença ocorre na ordem de 73,93% em todo estado, o que significa 295 no total de 399 já registram casos confirmados.

Além disso, no dia 11 de junho de 2020, os CIs para o Paraná oscilavam em média de 74/100mil, considerando valores de 0 (sem ocorrência da doença) até o valor máximo de 1851,3/100mil, que foi observado no município de Coronel Domingos Soares, no setor sul do estado (Figura 2).

Com exceção, do município de Coronel Domingos Soares, outros nove apresentam maiores CI´s Santo Antônio do Caiuá (806,7), Mirador (730,6), São João do Caiuá (609,0), Tamboara (600,3), Guaporema (450,7), Campo Bonito (431,1), Ibema (428,6), Cornélio Procópio (394,2) e Tuneiras do Oeste (379,5). Do universo dos municípios com incidência da doença, 34,58% (102) apresentam valores acima da média estadual e ocorrem principalmente no interior do estado definindo incialmente as áreas críticas e potencialmente críticas à difusão da doença (Figura 2).

 

Figura 2 – Taxa de incidência por município no Paraná

Por este aspecto, a avaliação da difusão espacial da Covid-19 no Paraná, deve incorporar, além do caráter urbano-regional, a difusão da doença relacionada aos setores produtivos, notadamente aqueles considerados como atividades essenciais ou de serviços prioritários como, por exemplo, os frigoríficos (HECK et al., 2020).

A análise indica que os frigoríficos devem ser entendidos como super-spreaders (super disseminadores) (BOULOS E GERAGHTY, 2020; DYAL et al., 2020; NICOLELIS, 2020), ou seja, como centros de difusão do vírus, uma vez, que essas unidades, além de ampliar sobremaneira os agravos à saúde dos/as trabalhadores/as e da saúde coletiva, também organiza-se como elemento de propagação da doença no território. O argumento não é novo, uma vez que, como outras doenças contemporâneas, a Covid-19 atinge mais gravemente a classe trabalhadora.

Desta interpretação é possível observar que o arranjo representado pela distribuição do CI destaca as áreas de notável semelhança entre o número de empregos no setor de frigoríficos de aves e suínos do Paraná. Destaca-se, setores dentro das regiões Oeste, Sudoeste, Noroeste e Norte-Central do Paraná, que contemplam os maiores números de empregos no estado e com concomitância com os municípios cujos CIs estiveram acima da média estadual (Figura 3).

Figura 3 – Relação Covid-19 e empregos em frigoríficos no Paraná

 

Observa-se também a presença de áreas cuja presença do setor é fraca, mas a incidência da Covid-19 é forte, como em Curitiba e Região Metropolitana, o que demonstra que é preciso compreender que a difusão espacial da doença opera primeiro nas áreas mais urbanizadas e conectadas aos sistemas logísticos de transporte e mobilidade. Porém, no interior do estado, a semelhança entre a incidência espacial da Covid-19 e empregos em municípios com frigoríficos abate de aves e suíno, é o que permite ampliar a análise também para os fatores de sua interiorização.

Essa avaliação indica que os frigoríficos são um dos fatores responsáveis pelo processo de interiorização da doença no Paraná. A semelhança entre o número de casos da Covid-19 e a grande presença de empregos em frigoríficos demonstra que é necessária atenção especial para este setor, cujo processo produtivo reúne condições propícias para o contágio e proliferação do vírus (Figura 4).

No caso dos frigoríficos de abate de aves, a semelhança pode ser observada a partir da área de concentração que indica a abrangência dos setores oeste, norte e sudeste do estado. Já o abate de suínos, contempla uma espacialidade concentrada no setor leste e oeste principalmente.

 

Figura 4 – Relação entre casos da Covid-19 e concentração de empregos em frigoríficos de aves (a) e suínos (b).

a)

b)


A consideração permite indicar os frigoríficos no conjunto de atividades essenciais que não foram paralisadas e, como as linhas de abate de processamento de carnes estimulam a aglomeração interna à unidade fabril, somada a intensa e cotidiana mobilidade regional (articulação de trabalhadores/as e seus locais de residência no conjunto de municípios imediatos e próximos à unidade sede), podem se configurar como centros de disseminação da Covid-19.

Por este aspecto, é possível considerar definições de áreas potencialmente críticas à difusão e concentração espacial da Covid-19, uma vez que os dois mapas representam realidade que reúne um amplo circuito produtivo que vai desde as granjas de galinhas e porcas avós (matrizes), passando pelas granjas de engorda destes animais), empregando milhares de famílias e trabalhadores(as) envolvidos diretamente neste circuito produtivo, bem como em atividades de suporte como maquinário e implementos agropecuários que se instalam para atender a demanda dos frigoríficos (SORJ, POMPERMAYER e CORADINI, 2008; HECK, 2017b).

Esse argumento é melhor visualizado na Tabela 1, que apresenta os municípios com o maior número de casos confirmados da Covid-19 que podem ser enquadrados em áreas críticas para difusão da doença.

 

Tabela 1 – Relação entre Covid-19 e os 10 primeiros municípios com frigoríficos.

Município Casos confirmados* Óbitos confirmados* CI Aves Suinos
Cascavel 930 11 324,9 5920 878
Maringá 319 11 89,3 4980 0
Toledo 190 2 159,2 0 6282
Cianorte   179 2 255,9 2729 0
Rolândia 28 2 48,4 4746 0
Medianeira 22 52,6 0 5108
Palotina 19 1 66,2 4931 0
Cafelândia 5 34,1 5291 0
Jaguapitã 5 40,9 3328 0
Matelândia 2 12,4 5876 0

*Notificações observadas até o dia 11 de junho de 2020. Orgs. Autores.

 

Essa definição pode ser destacada sinteticamente por: 1) a determinação por parte do governo federal que entende os frigoríficos como atividade essencial; 2) a característica específica do setor em ser intensivo em mão de obra o que implica na aglomeração de milhares de trabalhadores/as nas linhas de produção; 3) as condições ambientais controladas (frio e a baixa taxa de renovação do ar) que favorece o contágio e a disseminação do vírus; e, 4) a migração pendular diária na qual os frigoríficos buscam trabalhadores/as em municípios circunvizinhos, o que leva ao surgimento e aumento de casos não apenas na cidade sede do frigorífico, mas principalmente aos municípios imediatos e próximos.

 

Algumas considerações

O estado do Paraná está na fase de interiorização da COVID-19, por isso, atividades essenciais, como frigoríficos são consideradas como fator de risco à saúde coletiva e dos/as trabalhadores/as, bem como de difusão da doença no território. Existe semelhança entre a concentração de empregos em frigoríficos e casos da Covid-19 no estado, principalmente quando se assume 95% do percentual explicativo da incidência da COVID-19 em municípios com frigoríficos, o que configura as áreas críticas à difusão da doença.

Dos 64 municípios com registro de empregos em frigoríficos de aves e suínos apenas 3 (Santa Isabel do Oeste, Roncador e Cambira) não registraram casos da Covid-19. As características do ambiente e as condições de trabalho em frigoríficos favorecem o ciclo viral, bem como a migração pendular diária de trabalhadores se torna potencial de propagação do vírus para municípios do entorno (áreas potencialmente críticas) e a sede (áreas críticas).

Devido à importância da situação, é fundamental a adoção de uma estratégia de testagem em massa e de forma seriada (recorrente) na força de trabalho das unidades de frigoríficos, a fim de caracterizar e analisar o avanço da epidemia entre os/as trabalhadores/as. Indica-se, seguindo referências da área da saúde, a articulação dos dois tipos de teste o Reverse-Transcriptase Polymerase Chain Reaction (RT-PCR) e imunoglobulinas. Essa informação é fundamental para o planejamento seguro das atividades produtivas, a fim de salvaguardar a saúde dos\as trabalhadores\as e, quando necessário, reforçar os critérios de proteção e distanciamento social para além do que já é obrigatório.

A adoção de medidas de contingenciamento do ritmo de produção e do número de trabalhadores/as nos processos produtivos também é necessária, sem prejuízo salarial e aos seus direitos, bem como é fundamental manter os contratos e garantias com avicultores e suinocultores integrados no período de interdição ou de diminuição dos abates.

Nossa análise indica existir relação entre municípios sede de frigoríficos e de seu entorno com o crescimento quantitativo de casos da Covid-19. Por isso, conclui-se que existem áreas críticas e potencialmente críticas considerando a similaridade e a difusão espacial da doença no âmbito local e regional. Nesse caso, os municípios com frigoríficos podem ser assumidos como centros de propagação da doença (super spriders), devido o papel de conexão com os municípios vizinhos, conforme também indica literatura internacional (DYAL et al., 2020; LECLERC, FULLER e KNIGHT, 2020; MOLTENI, 2020; NICOLELIS, 2020).

 

Referências

BOULOS, M. N. K. GERAGHTY, E. M. Geographical tracking and mapping of coronavirus disease COVID-19/severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2) epidemic and associated events around the world: how 21st century GIS technologies are supporting the global fight against outbreaks and epidemics.  International Journal of Heath Geographics, v. 19, n.8, 2020.

DYAL, J.W. GRANT, M.P. BROADWATER, K, et al. COVID-19 Among Workers in Meat and Poultry Processing Facilities ― 19 States, April 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep, n.69, p.557–561, 2020.

GUIMARÃES, R. B. SPOSITO, M. E. B. Por que a circulação de pessoas tem peso na difusão da pandemia. Unesp Notícias, São Paulo, 26 mai. de 2020. Disponível em: <https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/35626/por-que-a-circulacao-de-pessoas-tem-peso-na-difusao-da-pandemia>. Acesso em: 09 jun. 2020.

HECK, F. M; NASCIMENTO JR, L; RUIZ, R. C; MENEGON, F. A. Os territórios da degradação do trabalho na Região Sul e o arranjo organizado a partir da COVID-19: a centralidade dos frigoríficos na difusão espacial da doença. Revista Metodologias e Aprendizado. v. 3, p. 54-68, 2020.

HOEK, L.V.D.; PYRC, K.; JEBBINK, M.F.; VERMEULEN-OOST, W.; BERKHOUT, R.J.M.; WOLTHERS, K.C.; DILLEN, P.M.E.W.; KAANDORP, J.; SPAARGAREN, J.; BERKHOUT, B. Identification of a new human coronavirus. Nature Medicine. 10, 4, 04/2004.

LECLERC, Q. J. FULLER, N. M. KNIGHT, L. E. What settings have been linked to SARS-CoV-2 transmission clusters? Welcome Open Research, v.5, n.83, p.1-16, 2020. Disponível em: <https://wellcomeopenresearch.org/articles/5-83>. Acesso em: 11 jun. 2020.

MOLTENI, M. Why Meatpacking Plants Have Become Covid-19 Hot Spots. Wired, São Francisco, Estados Unidos, 07 mai. de 2020. Disponível em: <https://www.wired.com/story/why-meatpacking-plants-have-become-covid-19-hot-spots/>. Acesso em: 11 jun. 2020.

NASCIMENTO Jr, L; RIBEIRO, E. A. W; MENEGON, F. A; SPRINGER, K. S; MONGUILHOT, M.; MELIANI, P. F; REGINATO, V. S. C. Suscetibilidade à covid-19 em Santa Catarina: uma proposta metodológica. Hygeia, Edição especial. p. 274 – 286, 20 jun. 2020.

NICOLELIS, M. “Vamos viver algo que nunca imaginamos na história do Brasil. E isso, nas proporções que vamos ver, não era inevitável” [Entrevista concedida a] Daniel Feix. Gaúchazh, 15 mai. 2020. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2020/05/miguel-nicolelis-vamos-viver-algo-que-nunca-imaginamos-na-historia-do-brasil-e-isso-nas-proporcoes-que-vamos-ver-nao-era-inevitavel-cka89uqyt004j015n5u44sr42.html>. Acesso em 09 jun. 2020.

RADAR COVID-19.  Análise temporal dos casos confirmados de COVID-19. Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências e Tecnologia. Presidente Prudente. Disponível em:  http://covid19.fct.unesp.br/mapeamento-cartografico/. Acesso em: 05 mai. 2018.

 

  займы на карту займы на карту без отказа

Fernando Mendonça Heck

Sobre Fernando Mendonça Heck

Professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Coordenador do Centro de Estudos sobre Técnica, Trabalho e Natureza (CETTRAN) e membro da Rede CEGeT de Pesquisadores. Militante da Consulta Popular.
Veja outros posts por Fernando Mendonça Heck →

Comentários

  1. A área frigorífica é uma área essencial muito sebsivel. Muitas vezes, nos parece que falta uma transparência maior na divulgação dos fatos e da adoção de medidas sobre o assunto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *