O pior está porvírus: em defesa da classe trabalhadora para além da pandemia da COVID-19

Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
tem que continuar…
Aldir Blanc*

O pior está por vir pós-vírus, ou o pior está porvírus? A metáfora descortina o caminho que me proponho trilhar, neste ensaio, com vistas a oferecer reflexões críticas iniciais sobre os efeitos da contaminação da COVID-19 que se sobrepõem à contaminação manipulatória intrínseca ao funcionamento da sociedade capitalista. Seus utensílios, rotinas e fundamentos nefastos, tais como a inclusão marginal de contingentes expressivos de trabalhadores, sejam empregados formais, sejam informais, empreendedores, avulsos, de toda sorte etc. A iniciativa de estruturar argumentos consistentes para oferecer ao debate reflexões contundentes está reservada ao momento subsequente, que me reterá nas próximas semanas. Aqui, ofereço preocupações iniciais para o diálogo rápido e contingente à ascensão da pandemia e aos desarranjos da “normalidade” de uma conjuntura de per si, inicialmente, indecifrável.

É importante, então, desde já, assumir que é improvável que o desvendamento inicial das tramas postas deem conta de todo o percurso previsto. Por isso, com base no título original que me provocava às questões previamente delineadas, no âmbito do movimento destrutivo da tríade descoronizar, desbolsonarizar e desmoronizar, me permitiu apenas indicar aspectos mais gerais da rota de destruição que se impõe aos trabalhadores e à sociedade brasileira em geral, e que me ocupará, prometo, a aprofundamentos, em momento próximo.

Antes, porém, para dar luz ao pior está porvírus, é importante afirmar que o que já está ruim, ao ter o acréscimo dos efeitos da COVID-19, caminhará, tudo indica, para uma realidade explosiva e cruenta para os trabalhadores, para a sociedade e para o ambiente, em geral. O que já se faz realidade e se recompõe, nos últimos 40 anos, especialmente, no Brasil, revela a convivência simultânea de formas regressivas e espectrais (com base no avanço tecnológico). Ou seja, práticas mais rígidas de controle do trabalho – desde os fundamentos taylorista-fordista-toyotistas –, os quais, sob as diretrizes do desenvolvimento tecnológico e da coqueluche das TI – Tecnologias da Informação (para ser fiel ao momento infeccioso), e já na segunda década do século XXI, das plataformas capitalistas (quer na forma crowd work ou home office, quer on demand ou uberização, delivery), impõem a marca da modernidade, neste século.

Esse mantra se consuma sob procedimentos e decisões programadas pelo capital, à parte do respeito aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente. Menos ainda, concede aos trabalhadores, sujeitos exclusivos da criação das riquezas oriundas desse sistema produtor de bens úteis e sua transmutação em mercadorias, o usufruto pessoal/coletivo, proporcional ao tempo de trabalho dispensado em correspondência ao preço final. Isto porque, para o capital, o objeto de desejo é a apropriação crescente do trabalho necessário, com a finalidade de engordar as porções do trabalho excedente, da subordinação da renda da terra etc. Como o dito popular, em Portugal, durante a invasão napoleônica, “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”. Ou seja, esses expedientes genética e historicamente vinculados à valorização do capital ou à necessidade de valorização do valor, da criação de mais dinheiro, mais lucro, ligam-se, a extração de trabalho não pago, permanecem desde sempre, fragilizando sobremaneira a reprodução dos trabalhadores, destruindo forças produtivas, o ambiente (as reservas minerais, a água, as matas, os solos, as áreas de cultivo etc.), no limite, está diante de uma máquina de destruição incontrolável, como afirma Mészáros (2015)[1] o capital é irreformável.

Se não bastassem essas mudanças intrínsecas às formas de produção, as relações de trabalho a elas vinculadas, o desrespeito aos direitos e à vida dos trabalhadores também atingem intensamente a identidade social e política dos trabalhadores, com repercussões nas entidades sindicais e mais propriamente na classe trabalhadora. Ou seja, além de aumentar a legião de marginalizados dos ambientes da produção (em toda sua extensão), em nome do desenvolvimento das forças produtivas, esse procedimento sempre esteve associado ao desrespeito aos mecanismos protetivos, regulatórios e fiscalizatórios do Estado, em favor dos trabalhadores, com significados que se misturam em demarcações tênues entre empregos precários com registro, informais, avulsos, terceirizados etc. Nessa sintética digressão histórica, tem-se que a desespecialização e a polivalência dos operários qualificados implicam as transformações dos trabalhadores multifuncionais, o que repercute na superqualificação/desqualificação do trabalho, como parte dos ajustes do controle parcelar taylorista/fordista, vinculado à rigidez dos sistemas de controle verticais do processo de trabalho. Tem-se, então, a intensificação da exploração do trabalho, das horas extras, do extermínio das Comissões de Fábrica, e, no seu lugar, o Círculo de Controle de Qualidade (CCQ), associado à participação nos lucros e nos Resultados (PLR), o sindicalismo por empresa, o ordenamento social pactuado etc. Impõe-se, nesse cenário, o desmonte das estruturas formais produtivas, com a disseminação da terceirização, a qual divide os trabalhadores, o movimento sindical e operário e, por suposto, a própria composição da classe trabalhadora, à base da propulsão da mais-valia.

A consecução da reestruturação produtiva do capital nos desafia às mudanças de relevada expressão para os trabalhadores, já que potencia rearranjos territoriais intensos e rápidos, nos processos de produção propriamente ditos (produção imediata, distribuição, circulação e consumo) e de gestão e controle do trabalho, afinados ao gosto da flexibilização dos contratos, da remuneração, em meio à amplificação do neoliberalismo (ilimitado), do Estado privatizado ou cada vez mais mínimo, para as políticas públicas, para benefício dos trabalhadores. O desmonte perene da estrutura organizativa das empresas e as repercussões de extremada latitude que acometem o processo de trabalho e, em decorrência, a destruição/eliminação de empregos formais (com carteira de trabalho assinada e os direitos previdenciários e protetivos etc.), impactam em proporção e magnitude avassaladoras a organização, estrutura e a rotina dos sindicatos, especialmente na eliminação dessas instituições, assim como resultam na fragilização política daquelas que se mantêm, associadas, em diversas escalas ao sabor de suas opções político-ideológicas.

Se não bastasse a tragédia social intrínseca à cena que se reserva aos trabalhadores, nesse ambiente reestruturado, a consumação do Golpe de 2016 e o que se sucedeu às eleições de 2018, ganha importância o que já denominei demarcação dos tempos da desproteção [2]. Ou, ainda, com a precisão cirúrgica de Antunes (2018) [3] de que, “se os jovens de hoje tiverem sorte, serão servos”, numa clara alusão ao que resta como produto desse histórico desabonador aos trabalhadores e à classe trabalhadora, diante da fatídica subordinação aos imperativos do metabolismo do capital. Sem contar, sob os efeitos ainda não conhecidos da Revolução 4.0, com a uberização ou a fase virulenta das plataformas e aplicativos de gestão e controle, estimuladoras do empreendedorismo, do desapego aos direitos, à seguridade social, e a reboque da flexibilização e desproteção total. Exemplo que nos sirva para o momento seriam as atividades de entrega de alimentos (comida) ou delivery, IFood, Rappi etc., as quais já movimentam R$18 bilhões/ano e se utilizam de aproximadamente 4,5 milhões de trabalhadores, sem nenhum vínculo empregatício e que têm que possuir, em contrapartida, os instrumentos de trabalho, a começar pelas motos, bicicletas, jaquetas, bags, máscaras protetoras.
Essas imposições das plataformas e dos aplicativos já marcam um novo tipo de superexploração que, apressadamente, defino como cyberizada de servidão por dívida. A mais valia absoluta e a mais valia relativa se superpõem, portanto não se separam e os expedientes da acumulação primitiva do capital continuam presentes. Ainda é pouco o que se desenha a partir de então e com os anúncios para o futuro próximo, daí a satanização de pior está por vírus.

Não obstante, não poderia faltar o nexo do par siamês que até uma semana atrás se compunha irmanado, com alguns possíveis retoques aparentes e o mise-en-scène típico da relação sórdida da dupla, que me levou a empregar a nomenclatura desbolsonarizar e desmoronizar.

O conteúdo anti-humanitário e antidemocrático, os quais são obrigatórios, em se tratando da lama que nos atola a todos em mau cheiro e contaminação manipulatória, até por justiça, não se reserva somente à dupla, identificada pela negação identitária metaforicamente adotada. Isso é certo, até porque terraplanistas e Jesus na goiabeira são apenas migalhas da avalanche que nos invade, todos os dias, nos noticiários e na imprensa em geral, abarrotando-nos de sentimentos ruins, agressividades e muitas bobagens.

Ao exemplificar a dupla em cena, apenas me sirvo da obviedade de tratar-se de titulares de mentiras e, no caso especial do ex-magistrado – agora também ex-ministro da Justiça –, profissional de estirpe sórdida, que manchou de fezes a toga, com atitudes deploráveis, antidemocráticas, fraudulentas, persecutórias etc. Mais uma vez, obedecendo a critério de justiça e competência meritocrática, à titularidade do governo bolsossauro se juntou o que há de mais fétido, incompetente e destruidor, na contemporaneidade, no Brasil, demonstrando nenhuma possibilidade de resolver a
contento as demandas emergenciais, compatíveis à defesa e proteção da saúde dos brasileiros, sob o ataque cruel da COVID-19.

Ocupo-me inicialmente em questionar aqueles(as) que ainda buscam motivos e argumentos para continuar apostando no pandemônio, cujo epicentro é constituído pela absoluta insanidade e maldade programadas pelo titular do governo federal – o qual já tive oportunidade de adjetivar de bolsossauro e a isso dedicar-me, em outro texto [4] –, que se responsabilizem pelo esplendor das bravatas e da necropolítica. Ainda defendem, esses fiéis seguidores, a prática inconteste de insanidades neofacistas, misóginas, racistas, enfim, preconceitos de toda sorte; seria o caso de indagar, ainda, por qual motivo ainda se faz presente a anti-humanidade contida, paradoxalmente, na aquiescência ao fundamentalismo religioso que se ergue por meio da bravata Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. São esses valores que os carinhosamente reconhecidos como bolsominions estão endossando.

Alguns, por convicção, endossam porque são motivados ideologicamente a obstar a ascensão social dos de baixo, seja pela melhoria das condições de vida, seja pela possibilidade de acessar a Universidade pública, seja ainda pela inserção, através de melhores postos de trabalho
oriundos das lutas consequentes da garantia e ampliação de direitos etc. Misturam-se frações burguesas de ampla tonalidade [empresários (grandes redes comerciais, banqueiros, industriais), especuladores, grupos midiáticos], setores médios, embrutecidos pelo consumismo e incapazes de aceitar o convívio de brasileiros em ascensão social – via elevação da capacidade de consumo –, em aeroportos, salas de teatros/cinemas, pizzarias, no trânsito etc. Outros, balizados pelo fundamentalismo neopentecostal, que não têm motivo material aparente, já que a massa de fidelizados não é portadora de fortunas e bens materiais fartos, entretanto, carrega em si o rechaço anacrônico anticomunista, anti-indigenista, antiquilombola, anticamponês, antiesquerda, antiLGBT, antidemocracia etc.

O sentimento de ódio de classe, ou a negação dos valores que compõem e justificam as demandas materiais para garantir investimentos públicos, primários, para a saúde, educação, saneamento etc., motivam a defesa do Estado mínimo, daí a facilidade com que defendem as reformas. Na verdade, as contrarreformas destruidoras de direitos, já em curso (Trabalhista, Previdência), assim como tantos expedientes, por meio de Projetos de Lei e Medidas Provisórias em apreciação etc., destinam-se, como míssil teleguiado, às camadas sociais mais desprotegidas e vulneráveis. A força viva desse ambiente de destruição, já não tão visível, oportunamente, e já definido como pandemônio [5], alude ao ambiente nefasto, nutrido pelo que há de mais vil e atrasado no empresariado nacional, no reacionarismo de amplo espectro ideológico, de assassinos profissionais encastelados nos agrupamentos milicianos e tantos outros que somente se somam para blindar a realidade dos fatos, as manipulações, a jogatina e fisiologismos de toda sorte, praticados em plena luz do dia. A sintonia de todas essas mazelas reflete a falta de investimentos e sucateamento de equipamentos hospitalares na Rede SUS, não atendimento às demandas de contratação de servidores, somados às manipulações, desinformação dominante, aos desmandos e à negação do isolamento social por parte do governo federal, o qual nos remete, no dia 29 de abril de 2020, a 5.017 mortos no Brasil, secundado pelo Equador, com 871 mortos. Ainda posso ter-me esquecido de requerer evidência ao substantivo mito, tão largamente atribuído ao principal responsável por esse morticídio.

Estão em cena os grandes grupos midiáticos (Globo, Bandeirantes, SBT, Record, TV Vida, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É, Valor Econômico etc.), os quais, apesar de obstarem publicamente, em horário nobre, nos editoriais e nas capas semanais, aspectos pontuais referentes à condução da pirotecnia palaciana, os contrasensos mais absurdos do corpo ministerial, ainda se mantêm fiéis ao híbrido genético anticlasse trabalhadora, antidemocrático, antipovo, antidecência etc. Nutrem-se em defesa da resistência à rachadura da torpe aliança que se propuseram, desde o pré-Golpe de 2016, com a deposição da Presidente Dilma Rousseff. Ou seja, são defensores da comprometida qualidade da gestão do Estado e os rebatimentos na desvalorização do real, na política cambial, fiscal, e as consequências nos ganhos advindos da especulação financeira, do resgate dos títulos públicos, das exportações etc.

Entretanto, não permitem acesso ao contraditório, às reflexões comprometidas com os efeitos das ações desastrosas do governo, Congresso Nacional e do Judiciário, das reformas constitucionais etc., por exemplo, com o estancamento da destinação dos recursos orçamentários para as despesas primárias, para a saúde, a previdência, a assistência, a educação, o saneamento, a segurança etc., aos moldes do silenciamento em torno da EC-95, também conhecida, na origem, como PEC do Fim do Mundo. Covardemente, apenas insinuam que faltam mais investimentos para a Rede SUS, o que agora ficou fácil evidenciar, tamanho o escancaramento das fragilidades do sistema, em tempos de pandemia. Mesmo que denunciem alguns aspectos das fragilidades do SUS, especialmente as carências de leitos hospitalares para enfrentar as adversidades da pandemia da COVID-19, não trazem à luz reflexões sobre o porquê do sucateamento, o qual, somente nos últimos três anos, retirou do SUS R$ 20 bilhões de reais. Esses apoiadores do governo Bolsonaro são incapazes de cumprir o que se espera do jornalismo sério, comprometido com a verdade; assim, permanecem ocultando os interesses do capital, que se originam na mão dura dos preceitos neoliberais.

Seja qual for a patente bolosominion ou a escala dos vínculos que se entrelaçam em subespécies, quando somos intimados a refletir acerca do que fazer desde já, sob a ameaça avassaladora da COVID-19 sobre nós, especialmente sobre os mais vulnerabilizados, nós os incluímos também, pois nossas atenções estão focadas para o futuro da classe trabalhadora. Não se trata de apelo sacerdotal, mas de capacidade de apreender os sujeitos sociais transformadores e as identidades de classe.

Por isso, busco apoiar-me no neologismo descoronizar, a fim de tentar oferecer alguns questionamentos, mesmo que em forma de dúvidas e autoprovocações. Contudo, somente descoronizar não basta: será necessário que nos provoquemos a oferecer reflexões destinadas à desconstrução do governo que tem mandato constitucional no Brasil – e isso é para já.

Há também outra ordem de males que se perpetuam e precisam ser rapidamente contidos. Em primeiro lugar, obscurantismo e desprezo pela ciência, numa época em que os conhecimentos técnicos e especializados são imprescindíveis para percorrer rotinas conhecidas, de maneira a combater a pandemia, a começar pelos preceitos epidemiológicos, de vigilância e promoção à saúde, produção de medicamentos, vacinas etc. A negação e achincalhamento das recomendações médicas sobre a necessidade do isolamento social, para evitar a propagação do contágio da COVID-19, revela claramente atitude de cariz suicida, razão do morticínio anunciado. Só aparentemente, para os desavisados, se traduz em ignorância, pois, de fato, está em curso um sucedâneo de decisões, comprovadas, as quais se expressam fatidicamente enquanto atrocidades, dirigidas essencialmente ao
extermínio de pobres, negros, trabalhadores marginalizados etc. A destinação dessas ações é ainda mais agressiva, pois estas são veiculadas por meio das declarações na grande imprensa, no horário nobre das redes de rádio e televisão, todas vociferadas pela excrescência bolsossaura e também por seus asseclas.

As defecções que de hora em vez comparecem em cena, especialmente de políticos profissionais, inveterados, os quais apoiaram desde a primeira hora a insígnia “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, não se despiram da podridão que os mantém vinculados ao mesmo vernáculo político, inclusive suprapartidário. Isto é, os aparentes traidores da aura bolsossaura não arrearam justificativas nem explicitaram argumentos para se oporem às maluquices, quebra de acordos, agressões, autoritarismos, descompromissos etc., que os levaram a cindir com o mito, desde sempre tido como líder da nova política. É hilário!

Não é hora de modéstia, tampouco de falsa modéstia. E necessário reconhecimento de que o azar está lançado. Precisamos carregar de responsabilidades alguns entendimentos já adjetivados com delineamentos para o futuro próximo, tais como, depois da COVID-19, seremos diferentes, o mundo será outro. Para que um bom curioso não se confunda, será que estamos tentando expressar que, daqui para frente, o pior está porvírus, de sorte a extrair o sentido metafórico – que sugerimos para este ensaio –, de que a pandemia nos remete a um futuro anunciado de reviravoltas?

Antes, porém, a decisão do retorno à “anormalidade”, embasado na avaliação das necessidades dos trabalhadores informais, especialmente, por não disporem de meios de subsistência, senão a quebra do isolamento social, amplia os problemas, devido ao descontrole do contágio, o qual não obedecerá acordos prévios, mas se constata, no Brasil, apesar de não se dispor de informações detalhadas, os perfis predominantes hegemonizarem-se a trabalhadores, sendo que, nos centros urbanos maiores, residentes nos bairros periféricos, negros e mestiços etc.

Convicto desse desafio, aproveito-me da ideia provocadora de Souto Maior (2020), de que “a forma como lidamos com a pandemia […] diz mais sobre nós mesmos do que sobre o vírus”. Ou seja, põe-nos a pensar que é necessário nos projetarmos para o mundo que se anuncia, porque nos utilizamos de metodologias, procedimentos e conhecimentos técnicos que se mostraram incapazes, até então, para enfrentar a destrutividade imanente de seres microscópicos dotados da capacidade natural de se multiplicarem nos hospedeiros e de produzirem estragos incomensuráveis.

Se a vacina para combater essa pandemia virótica, ou a forma como o SARS-CoV2 se apresenta, estivesse disponível – e as fontes mais otimistas indicam ainda aproximadamente 18 a 24 meses para que esse intento seja alcançado –, possivelmente não estaríamos tão preocupados, mas até lá os efeitos do que nos ameaça trazem a nu que é hora de mudarmos a rota da nau. Até porque o modelo neoliberal de capitalismo, que apregoa liberdade para reinar sobre os interesses coletivos, se mostra incompatível com a preservação da vida, no planeta Terra.

O que se constata até o momento e, mediante prognósticos responsáveis, é que menos de 0,1% de óbitos incidem em pessoas na idade de trabalhar, vitimadas pela COVID-19, e, caso provocasse uma taxa de mortalidade de até 3% em pessoas adultas (exceto as idosas), afetando as atividades essenciais para a humanidade, tais como usufruir de água tratada, manutenção das redes de coleta e tratamento de esgoto, coleta e destinação final de lixo, energia elétrica, sistema de produção e distribuição de combustível, alimentos, remédios etc., a sociedade nos quatro quadrantes do planeta, após 90/120 dias de quarentena, estaria à bancarrota. Difícil prever, além de extrapolar os limites desse artigo, mas um novo cenário nos desafia pensamentos e ações.

É por dentro dessas fragilidades e contradições vivas que devemos nos ater, a fim de vislumbrar as possíveis soluções que se nos provocam, no momento. Em 60/90% de ataques mais incisivos do vírus, isolamento social e diminuição da atividade produtiva e das complexas etapas da mercadificação e especulação financeira, já é claro que o capitalismo está longe de dispensar a mão de obra do trabalhador(a), ou o expediente da apropriação de trabalho excedente e formas correlacionadas de subordinação do trabalho ao capital. Quer pequenas, quer médias ou grandes empresas (conglomerados transnacionais), sem o trabalho humano, sucumbem, tampouco a parafernália tecnológica, robôs e toda indumentária da inteligência artificial, da era digital, enfim todas as máquinas não sobrevivem sem que alguém as coloque para operar. O computador, as TIs, os chips não resolvem tudo, isso está claro.

Daqui para frente, sem que o exercício futurista me tome, coloco-me a refletir a partir de prognósticos responsáveis, quando teremos tanto a demarcação de relações edificadas sobre as fragilidades sistêmicas que densificam o objetivo maior da extração de trabalho não pago, com vistas à mercadificação insanamente amparada no consumismo. E ainda, na perda histórica da autonomia dos trabalhadores, do primor ontológico do ser social, tudo isso sob o anteparo de relações de troca duramente atingidas, quanto pela redefinição das fontes de obtenção de renda, salário, as quais conduzirão à bancarrota a vida social entre sujeitos monetários desregulados. Está em cena, a necessidade de uma referência epistemológica crítica e transformadora, capaz de captar esses sinais que rompem a ordem espacial dada e se somar aos chamamentos emancipatórios, nos permitirá apreender a atualidade da centralidade do trabalho, os conteúdos e as dinâmicas territoriais vivenciadas pelos homens e pelas mulheres que podem protagonizar a transformação/emancipação da sociedade e imprimir outro curso histórico para além do capital.

É hora de se unirem as forças democráticas, sujeitos sociais que se mantêm iluminados pelos elementares significados de humanidade e enunciados de proteção para sobrevivência, para se contrapor à destruição em curso do programa mortífero do governo, como defender e ajudar a construir, desde já, alternativas comunitárias capazes de dar voz ao calado senso de coletividade, dentre outros. Por exemplo, retomar, juntamente com os trabalhadores, as organizações sociais populares, velhas (já existentes) e novas (emergentes, neste tempo de susto pela pandemia), as experiências de produção de alimentos pelos agricultores familiares, para ser distribuídos gratuitamente aos trabalhadores desempregados e populações sob risco nutricional. É importante lembrar que essa alternativa foi eliminada da gestão pública, desde o Golpe de 2016, ou seja, fizeram fenecer a Política de Aquisição de Alimentos (PAA).

Assim, neste período, ganha importância crucial a luta pelo acesso às terras devolutas e improdutivas, temas como a Reforma Agrária, que, se prioritária e plataforma de luta dos trabalhadores, dos movimentos sociais, dos Partidos Políticos, poderá funcionar, num primeiro momento, como um colchão protetor das contradições mais abissais da atualidade. Ou seja, transformar-se em política de Estado, com vistas a minimizar os efeitos mais perversos da concentração de riqueza, renda, capital, superpostos pela devastação da COVID-19.

Porém, se fundamentada em objetivos sociais mais amplos, a Reforma Agrária poderá regular-se enquanto política perene de Estado, evidentemente, produto do acúmulo de forças no âmbito das lutas, no campo popular. No final das contas, impactar na ampliação de direitos e no quantitativo de camponeses(as) requer financiamento público regular e vínculos estreitos às novas exigências de alimentação – portanto, ainda que se aproveite o PRONAF, será necessária ampla e profunda remodelação –, em condições de viabilizar a produção de alimentos em abundância e, na ponta, diminuir os efeitos da fome, do flagelo, de modo a regularizar um padrão nutricional saudável e adequado.

A preocupação fundamental com a alimentação da população depauperada e ainda mais empobrecida, diante das desigualdades históricas, sobrepostas pela devastação da pandemia, nos obriga a exigir muito mais do que os R$ 500 milhões de reais anunciados e ainda não liberados, tendo em vista que aproximadamente 100 a 120 milhões de pessoas estarão ávidas, já nos próximos 90 dias. Essa quantia deverá crescer geometricamente e, portanto, colapsar todo o sistema de abastecimento, reservando a fome, as morbidades, a delinquência, para hordas de desempregados, desenraizados etc.

Nesse ambiente sob efeito da contaminação manipulatória, como propus acima, é imprescindível que não tergiversemos que pandemia se combate com direitos. Portanto, abre-se um extenso e conflituoso embate, o qual não tolerará dúvidas e tempo para pensar no que fazer.

Entretanto, os trabalhadores “não podem ser tratados sob ameaça” (ALCURE, 2020) [6], ou seja, além de amargarem a chaga do desemprego, as mazelas da desproteção, a ausência de políticas públicas que os condena ao subemprego, ao descarte etc., também são responsabilizados pelo insucesso das empresas. Está posto que terão de continuar abrindo mão e se submetendo às imposições ardilosas das contrarreformas, das decisões dos tribunais, as malvadezas oriundas da orgia palaciana etc. Presume-se que, em consequência, comparecerá a blindagem ideológica, mais que qualquer preceito oriundo do fundamentalismo neopentecostal, para naturalizar o leito do ideário da burguesia e do patronato retrógado, de que os trabalhadores não têm como escapar da falsa dicotomia emprego/desemprego-pandemia, daí condenados ao pífio e desrespeitoso “Programa emergencial de preservação do emprego e da renda”. O “Plano Pró-Brasil” emerge dos ministros militares, com horizonte de longo prazo, totalmente incerto, com acenos de parcos R$ 30 bilhões, em 10 anos.

O confronto de projetos de sociedade estará à flor da pele. O pior está porvírus nos ilumina a fortalecer pensamentos e ações qualificadas, oriundas de estudos, pesquisas em todas as áreas do conhecimento, e que necessariamente ganhem mentes para a práxis das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e da sociedade em geral, ou o amassar barro, em linguagem coloquial, seguidas de aportes financeiros compatíveis para reequipar e ampliar os laboratórios e Instituições Públicas relacionadas à saúde pública etc. E, ainda, as mobilizações e campanhas de conscientização, nas ruas, nas escolas, nos campos de futebol, nos locais de trabalho, nas igrejas etc., sob a orientação de que a pandemia da COVID-19 deixa rastros de destruição (visíveis e profundos), e é nesse momento o epicentro da tragédia que põe em xeque a vida no planeta.

Assim, o que tem de vir primeiro é a vida, a preservação da vida, e não a preocupação com a economia, com os prejuízos econômicos do capital, embora a bancarrota das empresas fosse algo ainda mais caótico. O desafio criativo de inventarmos outro mundo deverá ser a resposta coletiva rumo à defesa da humanidade, contra as perversidades desse modelo de sociedade que está de quarentena para um longo fenecimento; é a saída substantiva contra a catástrofe ambiental e as desigualdades abissais que continuarão potenciando novas crises sanitárias, que virão.

Já deu! Isto é, além de constatarmos o quão as iniquidades da sociedade capitalista intensificam a marginalização dos já mais vulneráveis [desempregados, subempregados, terceirizados, autônomos (equivocadamente intitulados de empreendedores)], temos as indicações do desmantelamento das camadas intermediárias, as quais, apesar de ainda se manterem em pé, com certa precariedade, porém, ameaçadas frontalmente, estão prestes a cair e se somar à vala da inclusão marginal.

É o momento de recolocarmos em pauta, obrigatoriamente o fim do capitalismo e do seu formato neoliberal e quaisquer outras combinações que debelam desse devir. Colocam-se em questão aprofundamentos e entendimentos das experiências e aprendizados que emergem do caótico mundo do trabalho, agora covidizado, bem como práticas históricas fundamentadas em preceitos solidários e socialização dos meios de produção e dos frutos do trabalho humano. É hora e vez de reconhecermos o socialismo – ainda que tardio e, por isso, nunca se fez tão urgente –, para iluminar a salvação do futuro da humanidade.

Caos! Total! E mais, pandemia que segue e o futuro pandêmico anunciado! Ameaças que confrontam a vida, nossas vidas!

Em defesa da classe trabalhadora para além da pandemia COVID-19, sabendo desde já que o pior está porvírus!

Avante!

Presidente Prudente, 01 de maio de 2020.

 

Notas

*Homenageio esse brasileiro, falecido hoje (04-05/2020), vítima da COVID-19, empedernido defensor da democracia, do socialismo e da liberdade, que por meio de centenas de canções, poemas, contos e demais escritos, fez vazar seu sentimento profundo de humanidade.

[1] Cf. MÉSZÁROS, I. A montanha que devemos conquistar. São Paulo: Boitempo, 2015.

[2] Cf. THOMAZ JUNIOR, A. Novos territórios da degradação sistêmica do capital. Terra Livre, São Paulo, Ano 34, v.1, n. 52, p.197-240, jan./-jun. 2019.

[3] Cf. ANTUNES, R. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2018.

[4] Cf. THOMAZ JUNIOR, A. Novos territórios da degradação sistêmica do capital. Terra Livre, São Paulo, Ano 34, v.1, n. 52, p.197-240, jan./-jun. 2019.

[5] Cf. SOUTO MAIOR, J. MP 927: da pandemia ao pandemônio. São Paulo, 25/03/2020. Disponível em: https://www.jorgesoutomaior.com/blog/mp-927-da-pandemia-ao-pandemonio. Acesso em: 30 abr. 2020.

[6] Cf. ALCURE, F. A pandemia do Coronavírus e os trabalhadores: algumas reflexões. Blog OTIM. Disponível em: ttp://otim.fct.unesp.br/pages/view/60. Acesso em: 30/04/2020. hairy woman займы на карту срочно займ срочно без отказов и проверок срочный займ на карту займ на киви кошелёкчастный займ под залогэкспресс займ на карту онлайн

Comentários

  1. Fantástico!!! Não tinha lido ainda o texto, escrito para o 1.o de maio. Para mim, o link foi um presente nesta manhã de 20.05, em que ostentamos a triste, trágica e funesta condição de terra arrasada em que o coronavírus mata mais de mil brasileiros por dia. Ainda que em um ponto ou outro possa não haver convergência de ideias, o leitor tem à disposição artigo revelador de conhecimento profundo do tema, que apresenta diagnóstico essencial preciso e desafios a serem enfrentados (e vencidos!) em benefício do trabalhador e da humanidade, num raro encadeamento de pensamentos expostos com beleza literária inconfundível, o que torna impossível a interrupção da agradável leitura antes do final. Torçamos para que mentes abertas e comprometidas com o trabalhador e com o destino da humanidade compreendam a necessidade de alteração de rota, para que haja cenário menos desfavorável e que a hoje realista percepção de que “o pior está porvírus” não se transforme em destino imutável e cruel. Parabéns, prof. Thomaz, pela lucidez.

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