O Pum da vaca e a dificuldade de cumprir a meta-ano

Sagrado em algumas culturas, indispensável e atende por nome entre os camponeses; reificado pelo capital, transmutado em mercadoria de exportação, bife, costelão, picanha, bolsa e sapato. Mas não fossem seus “agenciadores”, seriam de fato um problema as vacas, os bois e seus puns?

Esta questão me surgiu a ver divulgado o Documento Análise, Emissões do Setor de Agropecuária 2018, organizado pelo Observatório do Clima e coordenado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Uma ótima matéria está disponível no site do EcoDebate e há um vídeo divulgado pelo Imaflora sobre o relatório.

O Estudo aponta que “em 2016, a agropecuária foi responsável por aproximadamente 22% das emissões brutas e 30% das emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) do Brasil. As emissões diretas do setor agropecuário totalizaram 499,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente (CO2 e), um aumento de 1,7% em relação a 2015. Ou seja, a criação de gado no Brasil dá doses consideráveis de gases para a atmosfera que, sabe-se, influem diretamente no aquecimento global e nas consequentes mudanças climáticas. Os dados divulgados indicam que em 2016 as emissões pelo gado brasileiro foram de 392 milhões de toneladas, 17% do total de emissões de GEE para aquele ano, mas considerando as emissões do setor agropecuários, as emissões pelo gado correspondem a 79%.

Este, por si, já é um agravante, não fosse ainda outros elementos. A mesma pesquisa indica que o perfil geográfico das emissões do setor mudou. Entre as décadas de 1970 e 1990 as emissões estavam concentradas nos Estados Sul e Sudeste do país. Entretanto, essas emissões se deslocaram para os Estados do Centro-Oeste e, mais recentemente, para o Norte, avançando rumo a Amazônia à medida que a fronteira agropecuária se expande nessa direção. “No Brasil, a bovinocultura de corte é uma das principais responsáveis pela expansão da fronteira agropecuária e também a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa (GEE) do setor, respondendo por 69% das suas emissões totais.” O relatório destaca a dianteira assumida pelos estados de Mato Grosso e Rondônia, quanto as emissões no setor. No levantamento publicado em 2016 já se apontava um crescimento das emissões na região Centro-Oeste, com Mato Grosso na liderança, seguido por Minas Gerais e Rio Grande do Sul.  

Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, indicam que em 2016 foram exportadas 1.400,485 toneladas de carne, a maior parte in natura. Em 2017 este número salta para 1.534,379 toneladas, segundo a mesma fonte. São números que oscilam, desde 1999, quando a exportação de carne in natura supera a industrializada. Em 1998 a exportação total girava entre pouco mais de 200.000 toneladas. Na prática, exporta-se água, utilização do solo, restando a degradação ambiental e os lucros que ficam nas mãos de alguns e, há pouco tempo, financiavam campanhas de deputados e senadores.   

Mas deixemos os números e vejamos o que esta realidade implica em nossas vidas. Lembremos que o Brasil se comprometeu, em comparação aos índices de 2005, em reduzir a emissão dos GEE até 2025. No documento Intended Nationally Determined Contribution Towards Achieving the Objective of the United Nations Framework Convention on Climate Change, estabeleceu algumas metas que configuram a redução, no Acordo de Paris, em 37% das emissões.  Dentre as reduções assumidas estão justamente as de gás metano, subproduto conhecido como resultado da digestão – fermentação entérica – dos bovinos, o famoso “pum da vaca”. Não culpemos, evidentemente, os pobres animais visto que não lhes resta muito a não ser pastar, comer em pé, muitas vezes confinados, engordar, peidar e esperar pelo horrendo abate. Associado, principalmente na utilização de pastagem, está o desmatamento. Aliás, no que diz respeito a este o compromisso assumido pelo Brasil era baixar a zero até 2030, como elemento para redução das emissões.

Alcançar as metas de redução dos GEE, não há dúvidas, é uma urgência visto que a conta emissões=aquecimento global=mudanças climáticas terá como resultado não só migrações forçadas, extinção de seres e dificuldades extremas de vida para humanos e não humanos. Até os resorts à beira mar, onde passam as férias alguns daqueles que acumulam seu capital na exploração dos bens e dos trabalhadores, está sob risco. Já não são previsões o aumento do nível do mar, mas uma realidade que bate à porta, pela aceleração no degelo da Antártida, como demonstrou o estudo divulgado recentemente pela Universidade de Bristol e revista Nature.  

Claro, a culpa segue não sendo dos animais, mercadorias exploradas no escandaloso processo de acumulação que se aprofunda no Brasil.

Como afirma Dom Pedro Casaldáliga, em um de seus poemas: maldito seja o latifúndio, salvo los ojos de sus vacas.

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Gilberto Vieira dos Santos

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