O trabalho serve mesmo para "ganhar a vida"? Entrevista sobre o trabalho no setor de frigoríficos

Reproduzo abaixo, a entrevista que concedi à jornalista Bruna Bandeira da Luz que foi utilizada como base para escrita de uma matéria sobre evento organizado pela Associação dos Portadores de Lesões Por Esforços Repetitivos (AP-LER) que será realizado em Toledo, no dia 05 de abril de 2018 no auditório do Sindicato dos Bancários. Como a entrevista não foi publicada na íntegra, resolvi divulgá-la pela minha página no blog do OTIM. 

Que livro será lançado no evento da AP-LER no dia 5?

O nome do livro é “No abate de frangos e suínos: o descarte do trabalho”, publicado pela Editora Prismas de Curitiba no ano de 2017. Sobre o que trata o livro? Versa, no geral, sobre as condições de trabalho neste setor, mas de um ponto de vista das relações espaciais e sociais, ou seja, não se trata de uma análise meramente técnica. Por exemplo, não me interessei por simplesmente falar sobre a inadequação de maquinário ou tão somente sobre a necessidade de adequar postos de trabalho e ritmo de produção. Esse tipo de pesquisa já é bastante significativo nas áreas de Engenharia da Produção, Ergonomia etc. Interessei-me em compreender as experiências das trabalhadoras e trabalhadores que abatem frangos para estas grandes empresas e cooperativas no Oeste do Paraná. Por isso, levei em consideração suas narrativas, isto é, aquilo que os próprios sujeitos consideravam sobre o trabalho, bem como as análises técnicas presentes em Ações Civis Públicas e relatórios do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e, sobremaneira do Ministério Público do Trabalho (MPT). 

Como foi o processo de elaboração da obra?

Este foi o meu trabalho de Mestrado que concluí no ano de 2013 junto à Universidade Estadual Paulista (UNESP). Tive muito apoio da AP-LER para realizá-lo, já que várias entrevistas foram realizadas com trabalhadoras e trabalhadores lesionados e que integram a Associação. Então, nós fizemos muitos trabalhos de campo e entrevistamos os trabalhadores e trabalhadoras em suas próprias casas. Obviamente, sob a necessidade de sigilo que a pesquisa nos solicita enquanto compromisso ético, não expus o nome verdadeiro de nenhum dos entrevistados, visto que não obtive autorização destes para fazê-lo. Outro aspecto importante que ressalto foi a parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT). Boa parte dos dados que consegui naquele momento foram oriundos da Ação Civil Pública movida contra a Brasil Foods de Toledo (PR) que, em 2013, encontrava-se em andamento. Informações sobre o número de movimentos repetitivos realizados nas atividades do frigorífico, de acidentes e doenças, inadequações do ambiente de trabalho, são algumas das informações que obtive com a pesquisa documental. Inclusive é importante lembrar que a BRF foi condenada em primeira instância neste processo ao valor irrisório (para o porte e tamanho da empresa e os danos causados à coletividade de homens e mulheres adoecidos) de R$ 10 milhões. Eu acho muito pouco em valores monetários, tendo em vista as narrativas que consegui obter junto aos trabalhadores e trabalhadoras. Pessoas que ficaram incapacitadas para o resto da vida e que, em muitos dos casos, deverão conviver com doenças originadas no processo de trabalho desta empresa certamente deverão concordar com a minha opinião.  

O que mais lhe chamou a atenção, durante a pesquisa desenvolvida para o livro, nas condições de trabalho impostas ao trabalhador? 

A brutalidade que o processo de trabalho pode trazer para a vida das pessoas. Ninguém espera que ao se empregar em algum local poderá adoecer e ficar incapacitado, por vezes, pelo resto de sua vida. A sociedade em que vivemos sempre aponta a necessidade de dar valor ao trabalho, dizem até que ele dignifica os homens e as mulheres e que é o princípio pelo qual você irá, por seus méritos próprios, encontrar “um lugar ao sol” ou “crescer na vida”. É justamente esses valores que pareciam informar as narrativas durante as entrevistas que apliquei. A expectativa dos homens e das mulheres que se empregavam em frigoríficos era justamente essa: a de ganhar a vida. Mas, além dos baixos salários, das atividades intensas e repetitivas – acima, inclusive dos limites biomecânicos do corpo humano como apontou a ACP movida contra a BRF – estes homens e mulheres se depararam com as doenças físicas e psicossociais. Quando coletei estes depoimentos senti que todos estes valores da dignidade no trabalho encontravam-se em completo desacordo com a realidade social dos homens e mulheres que entrevistei. Por isso, não dava para escrever um livro meramente “técnico” ou sem denúncias mais profundas à sociedade em que vivemos. Seria irresponsabilidade de minha parte se apartar deste debate. Assim, resolvi construir a narrativa do meu trabalho numa perspectiva das relações sociais que produzem processos de trabalho que podem impactar na saúde e vida das pessoas o que chamei de territórios da degradação do trabalho. Decidi formular tal conceito porque o que vi na pesquisa não era uma mera particularidade, mas sim uma realidade que se estende para outros processos de produção e atinge duramente a saúde das mulheres e homens que trabalham. Enfim, minha crítica não é meramente individual ao processo de trabalho nos frigoríficos, mas sim à toda estrutura social do modo de produção capitalista em que vivemos. Dirão que meu trabalho é ideológico e eu tranquilamente direi que ele é mesmo, assim como são os que me acusam de assim ser, já que ninguém existe nesse mundo sem ideologia. Não raro os que me acusarão acreditam que o mundo em que vivemos não precisa de mudanças ou que o cientista deve ser neutro. Nada mais enganador, pois no geral quem estudar o processo de trabalho em frigoríficos e procurar assumir este tipo de posicionamento, certamente irá ocultar nos seus escritos os sofrimentos dos homens e das mulheres que trabalham, o que é uma escolha enormemente ideológica.

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Fernando Mendonça Heck

Sobre Fernando Mendonça Heck

Professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Coordenador do Centro de Estudos sobre Técnica, Trabalho e Natureza (CETTRAN) e membro da Rede CEGeT de Pesquisadores. Militante da Consulta Popular.
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