PANDEMIA E PROLIFERAÇÃO DOS GURUS DA AUTOAJUDA PROFISSIONAL NA SOCIEDADE DO DESEMPENHO

Créditos da imagem: www.querobolsa.com.br

Ao longo da interminável quarentena a qual grande parte de nós, voluntária ou compulsoriamente, fomos submetidos, criei o hábito de ouvir podcasts e assistir a lives e outros vídeos do YouTube enquanto realizo as tarefas domésticas mais repetitivas e que não requerem muita concentração. Nesses momentos, muito frequentemente, percebi que os vídeos eram interrompidos de súbito por anúncios peculiares, nos quais pessoas exaltadas e em tom resoluto asseguravam ter chegado o momento do seu interlocutor, do outro lado da tela, obter êxito profissional e financeiro de forma instantânea e definitiva. Em linhas gerais, os anunciantes prometiam ensinar o caminho para “aproveitar a pandemia de Covid-19” e fazer da crise (sanitária, econômica, política, civilizatória) uma verdadeira “oportunidade” para vencer na vida.

Uma dessas mensagens, em particular, causou-me grande impressão. Nela, um homem de meia idade e visual hipster bradava, chacoalhando convulsionado um smartphone, mais ou menos o seguinte: “você tem um desses aparelhos aqui, certo? Então você deve ganhar pelo menos R$ 10.000,00 por mês, certo? Não? Como não!? Isso é inadmissível! Pare agora o que você está fazendo e me escute!”.

Penso que esses não são apenas fatos corriqueiros inerentes às novas tendências do mundo virtual, mas evidências muito sintomáticas de algumas características centrais do mundo do trabalho na atualidade, as quais, embora já existissem muito antes do início da pandemia, atingiram seu ápice a partir dela.

O Brasil de fevereiro de 2020, momento em que o primeiro caso de Covid-19 foi oficialmente reconhecido no país, já não era nenhum paraíso trabalhista. Antecederam-no quase três décadas de políticas neoliberais (ora mais radicais, ora atenuadas por sua variante novo-desenvolvimentista), reestruturação produtiva da produção e, consequentemente, intensa precarização do trabalho. Entre tantos outros, dois marcos recentes são emblemáticos desses processos combinados: a promulgação da Emenda Constitucional 95/2016, que estabeleceu o congelamento dos gastos públicos por 20 anos e vilipendiou direitos fundamentais previstos na Constituição Federal, e a Lei 13.467/2017, conhecida como Lei da Reforma Trabalhista, a qual, sob o pretexto da modernização, perpetrou retrocessos jamais registrados nos direitos trabalhistas [1].

Como se não bastasse, o Governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro (2019 ao presente) elevou a precarização do trabalho a um novo patamar, esforçando-se por cumprir à risca a promessa de que, depois de eleito, o trabalhador brasileiro deveria escolher entre emprego e direitos [2]. A extinção do Ministério do Trabalho e Emprego (MP 870/2019), a promulgação da chamada “Lei da Liberdade Econômica” (Lei 13.874/2019) e a aprovação da Reforma Previdenciária (PEC 6/2019) são alguns entre os tantos feitos de Bolsonaro nessa direção.

Muito ao contrário do que se propalou na grande mídia, portanto, a situação já se mostrava no mínimo dramática para boa parte das trabalhadoras e dos trabalhadores brasileiros. A pandemia só fez piorá-la. Segundo o IBGE [3], a taxa de desemprego saltou de 11,6% (12,3 milhões de desempregados) no trimestre encerrado em fevereiro de 2020, para 14,6% (14,1 milhões) em setembro. Mesmo entre os empregados, a informalidade já atingia oficialmente 41,6% dos trabalhadores do país, em 2019, de acordo com a mesma fonte [4] e, embora os dados para 2020 ainda não estejam disponíveis, tudo leva a crer que essa modalidade precária de trabalho sofreu verdadeira explosão após o início da pandemia. E isso sem contar os milhões de outros postos precários de trabalho, a exemplo daqueles enquadrados na modalidade trabalho intermitente, cuja formalização só foi possível após a referida reforma. Algo semelhante pode-se supor em relação à renda, que em 2018 não excedia um salário mínimo para 60% dos trabalhadores [5]. Tudo isso num mercado de trabalho progressivamente mais exigente e competitivo, que exclui de antemão tanto os trabalhadores mais jovens, por suposta falta de experiência, quanto os de mais idade, por excesso dela.

Num cenário catastrófico como esse, não seria estranho esperar que as pessoas se dessem conta de que, na mesma proporção em que estão submetidas a imperativos e dinâmicas efetivamente sociais cujo controle lhes escapa completamente do alcance, reduz-se a eficácia de suas decisões e ações individuais. Ou, dito de outro modo, quanto mais o desemprego e a precarização do trabalho avançam, menores as chances de obtenção de “sucesso individual” para a grande maioria das trabalhadoras e trabalhadores.

Contudo, como já havia antecipado comicamente o humorista Gregório Duvivier antes mesmo da deflagração da pandemia [6], o que acontece é exatamente o oposto disso: alastra-se na internet e nas estantes das livrarias uma pandemia paralela tão ou mais virulenta de gurus da autoajuda profissional oferecendo técnicas “infalíveis” para dar a volta por cima, desde que o discípulo esteja motivado o suficiente e se disponha a seguir o passo-a-passo proposto. Para os referidos “mentores” ou coachs, todos nós, sem exceção, somos empreendedores em potencial e podemos nos tornar nossos próprios (e prósperos) chefes. A ideia-chave desse pensamento é a seguinte: as grandes oportunidades de trabalho e renda estiveram aí o tempo todo e, se algo não deu certo na nossa vida e carreira, foi porque não nos esforçamos o suficiente e/ou não estávamos preparados para aproveitá-las – muitos gurus vão além, defendendo que tudo depende de mentalizar corretamente os desejos!

Malgrado sua nova roupagem mais cool, tal concepção não tem nada de atual. Escora-se no velho pressuposto liberal do indivíduo racional e livre como unidade de medida para a compreensão de todas as coisas. Não me entenda mal, caro(a) leitor(a), de forma alguma estou afirmando que nossas decisões e ações individuais não têm nenhuma importância na definição do nosso próprio futuro ou da história como um todo. Isso seria atentar contra o bom senso e desprezar a sabedoria acumulada em milênios de reflexão filosófica sobre as questões humanas. Para ficarmos apenas em dois exemplos, citemos Maquiavel [7], que acreditava que o destino dos indivíduos e Estados passava sempre pela relação entre virtù (virtude, competência) e fortuna (sorte, acaso), e Marx [8], para quem os homens certamente fazem sua própria história, porém não a fazem de livre e espontânea vontade, senão sobre circunstâncias que lhes foram transmitidas assim como se encontram.

Chamo atenção apenas para o fato de que atribuir ao indivíduo todo o mérito pelo sucesso ou culpa pelo fracasso, desconsiderando as circunstâncias objetivas nas quais ele se insere, especialmente em um momento de crise como o presente, é escamotear a realidade perversa das engrenagens sociais e políticas responsáveis por lançar mais e mais pessoas na vala comum do desemprego, da pobreza e da miséria.

Ademais, é interessante notar que esse tipo de discurso costuma promover um efeito duplo: se por um lado conforta e alivia, fazendo crer que a possibilidade de mudar está ali mesmo, ao alcance de todos, bastando mentalizá-la e esforçar-se o suficiente; por outro, frustra e deprime, pois acusa o próprio sujeito de ser o único responsável pelos seus fracassos – os quais, convenhamos, são muito mais frequentes que as vitórias que porventura se possa obter.

Já há bastante tempo, os aspectos salientados têm chamado a atenção de diversos analistas atentos do mundo contemporâneo. A atribuição exclusiva ao indivíduo da culpa por todos os seus problemas e insatisfações e, obviamente, da responsabilidade por toda e qualquer solução para superá-los, foi indicada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman [9] como uma das principais marcas do capitalismo atual, adjetivado como “capitalismo leve” em contraposição ao capitalismo fordista “pesado” do passado.

No mesmo sentido, Byung-Chul Han [10] afirma que a sociedade atual não é mais a sociedade do poder disciplinar analisada por Foucault e determinada pela negatividade das formas coercitivas de controle, mas a sociedade do desempenho, regida pela positividade, na qual os sujeitos são vistos como verdadeiros “empresários de si mesmos”. Nela, afirma o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, a proibição e a coerção cedem espaço ao projeto, à iniciativa e à motivação – termos, aliás, repetidos exaustivamente pelos novos gurus. O resultado é uma pletora de transtornos mentais (depressão, ansiedade, síndrome de burn out, TDAH, TPL etc.) que, em alguma medida, nos espreitam a todos.

Em todo caso, uma coisa não se pode negar: na sociedade do desempenho, a crise, seja ela antes ou depois da pandemia, é mesmo uma oportunidade única de projeção profissional e enriquecimento, especialmente para aqueles que se apresentam como detentores da tábua de salvação para a multidão dos desesperados. Como diz o ditado, na crise há sempre quem chore e quem dê risada vendendo lenço.

Referências

[1] PERPETUA, G. M.; HECK, F.; THOMAZ JUNIOR, A. A questão agrária e o trabalhador rural nos governos Temer e Bolsonaro: ascensão da extrema-direita e retrocessos sociais no Brasil do pós-golpe. Revista da ANPEGE. v. 16. nº. 29, p. 217 – 246, ANO 2020.

[2] Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2018/12/04/bolsonaro-trabalhador-tera-de-escolher-entre-mais-direitos-ou-emprego.ghtml (Acesso em: 25/11/2019).

[3] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/desemprego-e-o-maior-da-serie-historica-e-chega-a-146-no-3o-trimestre-diz-ibge/ (Acesso em 28/12/2020).

[3] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-11/ibge-informalidade-atinge-416-dos-trabalhadores-no-pais-em-2019 (Acesso em 28/12/2020).

[4] Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/mais-da-metade-dos-trabalhadores-brasileiros-tem-renda-menor-que-um-salario-minimo-24020453 (Acesso em 28/12/2020).

[5] Greg News. Coach. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M7KDXyKFU-E (Acesso em 28/12/2020).

[6] MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[7] MARX, K. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

[8] BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

[9] HAN, B-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

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Guilherme Marini

Sobre Guilherme Marini

Docente do Programa de Pós-Graduação - Mestrado Profissional em Geografia da FCT/UNESP/Campus de Presidente Prudente-SP. Membro do CEGeT e do CETAS e coordenador do Blog do Otim.
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