PARA FALAR DA CHINA, LER MAO FAZ BEM!

Por que algumas pessoas não enxergam claramente que a sociedade socialista tem contradições? […] Cem anos depois, ainda vai precisar de revolução? Mil anos depois, ainda vai precisar de revolução? A revolução será sempre necessária. (MAO ZEDONG, 2020, p.311-312)

 

Temos percebido que a crise atual do novo cornavírus fez com que a China, que já vinha tendo destaque como uma importante potência econômica (AMIN, 2013), passasse a ser a liderança mundial no combate a pandemia. A impressionante velocidade de resposta, junto ao relativo número baixo de casos, é contrastante em relação aos países europeus e em especial aos Estados Unidos da América (EUA).

Como explicar isso? De modo geral, a China é um verdadeiro “enigma” para o Ocidente. É muito comum vermos na imprensa tradicional uma campanha anticomunista muito forte, onde os termos “ditadura” e “regime chinês” são é muito utilizados. Do ponto de vista econômico também há uma confusão, alguns chamam de socialismo de mercado, outros de capitalismo de Estado, capitalismo mesmo, outros de comunismo. De modo geral, é uma verdadeira “verborragia” fundamentada no achismo e na imprensa burguesa.

Vale dizer que durante a crise atual, os termos “Vírus de Wuhan” e “Vírus Chinês”, somado a avalanche de fake News e de mentiras da imprensa tradicional sobre uma suposta política do medo sobre os médicos e a população, restrição da imprensa e outros adjetivos pejorativos que, por vezes, beiram a xenofobia, estão sendo propagados como uma ideologia que pretende isolar a China e a sua política de solidariedade. Muito disso está sendo desmentido pelo trabalho sério do Instituto Tricontinental (Xiaojun; Prashad; Zhu, 2020) e por outros meios de informação popular como o jornal Brasil de Fato, mas ainda com pouco alcance.

Aqui, o que nos preocupa é a propagação no meio acadêmico e mesmo no campo da esquerda da ideologia descrita acima. Fala-se do “imperialismo Chinês” por conta dos investimentos em todo o mundo, da “ditadura” e das longas jornadas de trabalho. Muitas vezes isolando apenas um aspecto da contradição e universalizando para toda a complexa formação socioespacial chinesa, deduzindo assim, as forças sociais, a estrutura de classes, a forma de Estado e o regime político. Atenção, não queremos dizer que, seja a compra de terras ou de empresas por capital chinês, ou até mesmo que as extenuantes horas de trabalho, levando a inúmeros problemas de saúde, inclusive a morte de trabalhadore(a)s, seja uma contradição menor, mas que elas devem ser consideradas levando um todo complexo e contraditório.

Há no meio científico um preconceito com o marxismo oriental, taxando-o de dogmático, de stalinista e autoritário. O marxismo oriental que levou a vitória concreta da revolução chinesa contra o imperialismo e o colonialismo, é negligenciado até por pensadores ditos descoloniais[1].

Não temos a resposta pronta, inclusive não queremos negar as contradições realmente existentes, mas o que almejamos dizer é que um importante passo para compreender a China é ler Mao Zedong[2], isso nos faria muito bem para espantar a ideologia burguesa e as leituras superficiais.

Um cartaz de propaganda para o Exército de Libertação do Povo Chinês, com membros do Exército Vermelho e da Guarda Vermelha avançando, segurando o Pequeno Livro Vermelho de Mao Zedong. Fotografia: GraphicaArtis / Getty Images

Obviamente que a China da revolução é muito diferente da China atual. É uma obviedade também que muito se transformou no mundo desde então. Mas ler Mao Zedong hoje tem uma dupla importância: a) compreender a experiência da revolução chinesa e a sua consolidação; b) entender o pensamento teórico e político de um dos principais líderes revolucionários do século XX, que inspira o país até hoje e ocupa um lugar de destaque entre as experiências de lutas anti-imperialistas e socialistas de todo mundo.

Recentemente a editora Expressão Popular nos brindou com mais um livro sobre o líder da revolução chinesa, com textos de Mao organizados por Miguel Enrique Stédile, chamado Mao Zedong e a revolução chinesa: métodos de direção e desafios da transição ao socialismo (2020). A editora já havia publicado o Sobre a prática & Sobre a contradição (2009), que também indicamos a leitura.

Vamos tecer uns breves comentários sobre o livro recém lançado. Uma primeira dificuldade que o(a) leitor(a) pode encontrar é o contexto em que os textos foram escritos, pois abarcam diferentes períodos da revolução. Mao sempre se preocupou com os problemas concretos, então normalmente são textos escritos no calor do momento em resposta às conjunturas vivenciadas[3].

O livro em questão está divido em duas partes, como já indicado no subtítulo, a primeira chamada métodos de direção e a segunda desafios da transição ao socialismo. Na primeira, há um conjunto de textos onde Mao se atenta em ajustar os métodos de direção do partido e da formação político e ideológica. Em meio a intensa guerra civil, preocupava-se com a eliminação da concepção puramente militar e dotar o exército e o partido de um caráter revolucionário, ou seja, de um compromisso com o povo, a adoção do centralismo democrático em sua organização e o marxismo-leninismo como orientação teórica.

No texto “A propósito dos métodos de direção” Mao salienta a necessidade de uma estreita ligação da direção política com as massas, transformando as aspirações das massas em bandeiras, concentrando-as e sistematizando-as, para então retornar as massas para que tomem como suas e colocando-as na prática. Ir avaliando a justeza dessas ideias no processo de ação e depois repetir o processo retornando as massas. Esse é o método chamado “das massas para as massas”.

Também destacamos o texto “Servir o povo”, pois foi esse método que permitiu ao exército revolucionário não só derrotar os inimigos, mas ir conquistando o apoio das massas, “fundindo-se” a elas. O primeiro elemento é não ter o medo das críticas apontadas pelo povo, mas aproveitá-las para melhorar o trabalho.de base O segundo elemento é não ter entre os quadros e membros do exército uma postura superior perante ao povo, mas sim uma prática que valoriza cada pessoa, cada trabalhador(a) independente do quanto teve a possibilidade de contribuir para a revolução.

Na segunda parte do livro, são textos que debatem os percalços da transição socialista. Aqui Mao enfrenta as tendências burguesas no Partido, elencado por ele como os burocratas, os que tendiam a restaurar o capitalismo, e os desvios de esquerda, o ultrarrevolucionarismo. Para quem quer entender melhor a China, isso é fundamental para entender país pós-Mao.

Nestes textos também estão elencados os debates sobre a industrialização, a agricultura, a coletivização agrícola, a melhora das condições de vida do povo e algumas diferenças da política econômica entre a China e a União Soviética. Queremos destacar o texto “Sobre o tratamento correto das contradições no seio do povo”, pois aqui, Mao Zedong faz um debate importante sobre o caráter da ditadura do proletariado. Em sua acurada leitura sobre a dialética, diferencia as contradições não antagônicas no seio do povo, e as contradições antagônicas entre o povo e a burguesia, adotando métodos de tratamento diferenciados.

Para as contradições antagônicas deve-se de um lado, aplicar a ditadura, reprimindo os elementos reacionários e exploradores, privando as burguesias e os latifundiários de alguns direitos, e por outro lado, a ditadura para defender e reprimir do país os inimigos externos, o imperialismo. Já nas contradições não antagônicas, a ditadura não se aplica, mas sim o centralismo democrático, ou seja, a dinâmica “unidade-crítica-unidade”, utilizando prioritariamente o método educativo, discussão, critica e persuasão. Esse método de democracia popular foi radicalizado durante a Revolução Cultural como elencado nos textos dessa seção.

É necessário um estudo acurado para entender o “enigma” Chinês e talvez a China de hoje não tenha nada do que já foi. Contudo, Mao Zedong nos ensina que sempre haverá contradições, mesmo em uma sociedade em transição socialista elas estarão presentes, assim como a necessidade da revolução.

O filosofo István Mészáros em uma das suas obras mais recentes afirmou que a tarefa dos socialistas era como conquistar uma montanha (2015). E para conquistá-la, era necessário ir além da conquista do Estado, mas caminhar para uma sociedade substantivamente igualitária e sustentável. Antes dele, Mao entendia que o imperialismo e o feudalismo, eram duas montanhas que pesavam sobre o povo chinês e o Partido Comunista havia decido arrasá-las. Porém, seria somente com as massas que eles poderiam escavá-las até o fim (MAO ZEDONG, 2020, p.141). Mao sabia que havia outras montanhas sobre estas e que elas só seriam destruídas se as massas assim o decidissem. Por isso, faz muito bem ler Mao!

 

Referências

AMIN, Samir. China 2013. 1 de mar. de 2013. Monthly review: an independente Socialist Magazine. Fonte: <https://monthlyreview.org/2013/03/01/china-2013/>. Acesso em: 10 de fevereiro de 2020.

Du Xiaojun, Vijay Prashad e Weiyan Zhu. A China e o CoronaChoque. 28 de abril de 2020. Fonte: <https://www.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-coronavirus/>. Acesso em: 28 de abril de 2020.

POMAR, Wladmir. A revolução chinesa. São Paulo: Unesp, 2009.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. De saberes e territórios: diversidade e emancipação a partir da experiência latino-americana. In: CRUZ, Valter do Carmo; Oliveira, Denilson Araújo (org.). Geografia e giro descolonial: experiências, ideias horizontes de renovação do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2017

STEDILE, Miguel Enrique (Org.). Mao Zedong e a revolução chinesa: métodos de direção e desafios de transição ao socialismo. Tradução: Andrea Piazzoroli Longobardi (et. al.), São Paulo: Expressão Popular, 2019.

TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a pratica & sobre a contradição. São paulo: Expressão Popular.2009

MÉSZÁROS, István. A montanha que devemos conquistar: reflexões acerca do Estado. São Paulo: Boitempo, 2015.

[1] Fazemos referência a uma frase de Carlos Walter Porto-Gonçalves, por ter supostamente descoberto traços coloniais presentes tanto no marxismo como no liberalismo (sic): “O liberalismo e o marxismo, ambos nascidos na Europa, não são a mesma coisa, muito embora de diferentes maneiras se vejam a braços com a colonialidade, essa dimensão não revelada pelas duas moderno-colonialidades” (PORTO-GONÇALVES, 2017, p.38). Dimensão “revelada”, apenas no plano ideológico.

[2] Mao Zedong (1896-1976) foi um dos principais líderes revolucionários da revolução chinesa de 1949, notável pela intensa atividade político e teórica. Mao nasceu em Hunan no sul da China, era filho de camponeses pobres, na juventude lutou pela libertação nacional do país contra as potencias europeias e japonesa. Adentrou o exercício revolucionário em 1911 e depois a universidade atuando no movimento estudantil. Após ter se tornado professor, impactado pela revolução russa de 1917, aprofunda sua militância no Partido Comunista. Após a Grande Marcha de 1934, torna-se líder do partido. Falece em 1976, sendo legatário da fundação da ‘”Nova China” e de um pensamento que hoje é uma das bases do país.

[3] Para a sua melhor apreensão é necessária uma introdução geral a história da china e da revolução. Indicamos aqui o livro escrito por Wladmir Pomar, chamado “A revolução chinesa” (2009) e os filme “A fundação de uma República” (2009) dirigidos por Huang Jianxin e Han Sanping,, “Lanternas vermelhas” (1991) e “Tempo de Viver” (1994) de Zhang Yimou. O documentário “Industria americana” (2019) dirigido por Julia Reichert e Steven Bognar.

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Rodolfo de Souza Lima

Sobre Rodolfo de Souza Lima

Doutorando em Geografia na FCT/UNESP Pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (NERA) Militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular
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