Por um fio: Mulheres, pandemia e home office

Foto:Diana Raeder/esp.CB/D.A Press

Falta de tempo, sobrecarga de trabalho, medo, angústia, falta de perspectiva, depressão, crise de ansiedade, cansaço, dores nas articulações. Esses são só alguns exemplos das inúmeras queixas relatadas por mulheres nesses cinco meses de quarentena e home office. Nesse pequeno ensaio tento dialogar com o relato de quatro mulheres, que expõem diferentes rotinas de trabalho, mas com alguns pontos em comum: a falta de tempo, a sobrecarga de funções, medo, cobrança e o processo de degradação do trabalho.

Aqui trago as vozes de uma manicure, uma assistente de TI, uma professora e uma assistente de compras. Para preservar suas identidades usarei nomes fictícios.

Lockdown. Dona Jô, 67 anos, manicure, aposentada. Para ela parar de trabalhar nunca foi uma opção. Trabalha desde os nove anos, e como manicure há mais de 30 anos. Sua aposentadoria mal dá para o plano de saúde, que insiste em pagar. Quando recebeu a notícia de que o salão de beleza no qual trabalha iria fechar por tempo indeterminado, se desesperou. Apesar de entender a gravidade da doença e saber que está no grupo de risco, pensou nos seus irmãos que têm no salão a única fonte de renda e ainda nem aposentados são. A notícia caiu como uma bomba, deixando estilhaços por todo o lugar e causando um grande estrago na família e nas finanças. Dois meses em casa, com uma ajuda aqui, outra ali, não se apertou, mas cansou de dizer não para as inúmeras ligações de oferta de crédito do banco. “Me endividar agora? Nem pensar. Perdoar as dívidas ninguém quer né!”. Taxas de juros reduzidas, consignado, marketing atrativo, mas dessa vez não mediu esforços para dizer não. Sempre atenta às notícias da TV: “uma injustiça esse pessoal que está recebendo auxílio emergencial sem precisar e tanta gente sem ter o que comer!” Com a flexibilização na abertura dos comércios, o salão voltou. Não como antes. As regras são bem diferentes e atendimento agora só com agendamento prévio. Algumas clientes insistem no atendimento domiciliar, ela não vai, acha arriscado demais. Hoje Dona Jô está trabalhando menos, os clientes já não aparecem como antes… Mas, mesmo correndo o risco, com medo, sabe que ficar em casa não é uma opção.

Home office e maternidade. Cinco meses em casa. Liz, 38 anos, mãe de um menino de cinco anos.  Cinco meses alterando entre crises de ansiedade, cansaço, estresse. Primeiro foi o cancelamento das aulas presenciais para as crianças e, logo depois, o acionamento para trabalho em casa. Reunião aqui, outra lá, até definirem: férias. Sim, férias obrigatórias de 30 dias que foram estendidas por mais 30. Isso acarreta dois anos trabalhando consecutivamente sem descanso, desanimou.  No retorno, outro baque, diminuição da carga horária de trabalho de 40 horas e redução em 25% do salário. De novo, não teve como dizer não, foi uma imposição. A princípio, a notícia não parecia tão ruim já que a rotina estava demasiadamente sufocante, só que a redução de horas de trabalho não significou em nenhum momento a diminuição de trabalho. Muito pelo contrário. Para a assistente de TI, a sobrecarga de trabalho foi inevitável.

“Coloco o relógio para despertar antes de todo mundo acordar. Preciso do silêncio para focar, se não faço isso, não consigo me concentrar. Nessa pandemia as coisas ficaram mais difíceis, a casa não é nada silenciosa, estamos em cinco dividindo um espaço pequeno. Apesar de cansada, sinto-me privilegiada, afinal não tenho que ir pra rua, nem preciso pegar lotação, posso ficar aqui e continuar o trabalho que é meu ganhapão. Já se vão cinco meses em casa, tentando adaptar a rotina, o local, a cadeira, o computador. Reparei que ando com dores nas articulações. Tive que investir numa cadeira nova e mesa para adaptar o computador. Cinco meses que meu filho não tem aula, cinco meses que me alterno entre trabalhar e cuidar dele, acompanhar as tarefas que a escola manda de forma remota e que ele, pela pouca idade, não consegue fazer sozinho. Ou seja, além das minhas tarefas diárias, ainda preciso dar conta de fazer as dele, dar banho, alimentar, brincar, e, sim, o dia só tem 24 horas”.

Aulas online. Essa é a nova rotina da Clara, professora, 37 anos, que trabalha numa escola da rede particular de ensino. “Não tive tempo para me adaptar às novas demandas exigidas pela escola, não tivemos treinamento, foi definido e é isso. O professor precisa lidar com a angustia de não saber se está conseguindo trabalhar com as necessidades de cada aluno”. Redução do salário em 25%, mas não do trabalho. Nessa nova rotina, a professora precisa estar disponível para tirar as dúvidas dos alunos e ficar 24 horas para o setor pedagógico. Além de receber a responsabilidade da permanência ou não do aluno matriculado na escola, como se fosse do professor. “Todo dia vou dormir tarde, pois acabo tendo que ficar resolvendo questionamentos dos alunos pós-aula, além da preparação das aulas, reuniões…O setor pedagógico já me ligou algumas vezes fora do horário de trabalho. Nunca me senti tão desvalorizada como agora. O que me mantém em pé são os alunos. Em casa precisei adaptar ao serviço de home-office, melhorar o computador e trocar a internet, tudo subsidiado por mim”.

Outro problema comumente relatado é a falta de empatia e pressão exercida pelos pais. O professor acaba mais uma vez sendo penalizado por tudo que fala e faz, ficando entre o aluno, seus pais, a direção da escola e sendo pressionado por todos os lados. “É uma sensação terrível como se estivesse sendo vigiada o tempo todo e o emprego estivesse em risco, estou extremamente cansada. Para além do home-office, preciso cuidar da casa e essas atividades tomam tempo e sobrecarregam de forma demasiada. A insônia me acompanha e acabo tendo que tomar remédio para relaxar e dormir. Todo dia sinto que devo um dia, e como se não descansasse nunca”.

A empresa vai fechar por tempo indeterminado. No inicio da pandemia a notícia caiu como uma bomba, primeiro férias coletivas obrigatórias e, depois, dois meses e meio em casa, recebendo 60 % do salário. Essa foi a decisão tomada pela empresa. Para Roberta, ajustar a vida financeira ao novo salário e a drástica diminuição foi o mais difícil. Mesmo após ter voltado ao horário normal de 8 horas há dois meses, ainda está tendo dificuldades para recuperar-se do prejuízo financeiro.”A mistura de sentimentos foi grande. Desespero, desânimo, medo. Ninguém me perguntou se eu ia conseguir pagar minhas contas.No começo até entendi que era uma crise financeira e econômica e que a empresa não tinha pernas para se sustentar, mas a forma como os donos da empresa trataram a situação acabou trazendo um clima super péssimo. Além de ter uma boa reserva financeira, a empresa conseguiu ainda abrir uma filial em plena pandemia, me pergunto: e a crise? Será que não poderíamos ser poupados? Outra coisa que nos preocupou logo no começo foi a exigência da empresa em manter os serviços de forma presencial, sendo que era super possível trabalhar em casa, mas nunca foi dada essa opção. No começo, quando as atividades voltaram, ficamos trabalhando apenas meio período, porém as coisas foram ganhando uma proporção sem tamanho, hoje preciso me virar nos 30 para poder dar conta do tamanho da demanda de trabalho. Abriram uma nova empresa, mas não contrataram gente nova, ou seja, todos estamos sobrecarregados de trabalho. Hoje trabalho 8 horas por dia. Almoço na empresa e às vezes mal tenho tempo para comer, pois não existe pausa. Todo tempo sou interpelada para resolver pendências, isso realmente está tirando meu sono. Ando tendo crises de ansiedade, depressão, estou cansada, estressada como se sempre estivesse devendo tempo, além de ter que estar disponível o tempo todo para a empresa, numa espécie de obrigação”.

O que vamos fazer? Estamos no meio de uma crise, não é mesmo?

Segundo o relato dessas mulheres, no começo todas essas imposições pareciam extremamente injustas, mas com o passar do tempo foram se naturalizando e até passaram a concordar com as empresas, com a abertura do comércio, com a possibilidade de ter mais tempo com a redução de carga horária, que não passava de ilusão. Além da rotina de trabalho, a rotina em casa parece consumir. Se passa mais tempo na cozinha, lavando roupa, limpando a casa, aliás, a casa suja mais, já que todos estamos nela. O único sentimento que chega e amedronta é o medo. Medo de ficar sem emprego no meio de uma pandemia, medo de não ter dinheiro para pagar contas, aluguel, as despesas dos filhos, comprar comida. Medo.Medo de contrair o vírus, medo pelos familiares expostos ao risco, medo.

As notícias não são das melhores, são alarmantes, passam de 130 mil mortes por covid no país. Nesse momento nos atravessa o sentimento cristão que nos aprisiona, temos que agradecer por ter emprego, casa, comida e saúde. Mas saúde será que temos? Aliás, o que é saúde para uma sociedade doente?

Parece que a pandemia nos transformou num polvo com mil tentáculos, para poder dar conta de tudo que essa “nova” rotina exige. Precisamos achar tempo pro supermercado, pra chamar o pedreiro, para arrumar o banheiro, fazer orçamento, para o trabalho, marido, família, filhos.

E nós?

Estamos todas por um fio!

 

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https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/08/pesquisa-aponta-que-afazeres-domestico-dificultam-home-office-para-645-das-mulheres.shtml

https://midianinja.org/afrolatinas/home-office-e-mulheres-na-pandemia/

https://outraspalavras.net/feminismos/tempos-modernos-trabalho-feminino-em-pandemia/

https://www.acritica.com/channels/manaus/news/isolamento-acentua-desigualdade-de-genero-e-expoe-acumulo-de-trabalho

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/trabalho-e-formacao/2020/04/26/interna-trabalhoeformacao-2019,848505/sobrecarga-atinge-mulheres-durante-a-quarentena-deixando-as-por-um-fio.shtml unshaven girls займы на карту без отказа

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