Trabalho vivo X Trabalho morto em educação: a ação oportunista e necrófila de governos e empresas em tempos de COVID-19

“Oi professora, tudo bem? Sem você professora eu não consigo aprender bem. A mãe não é igual você, você tem umas mania de pro, a minha mãe não tem, ela trabalha num restaurante, ela só tem a mania de fazer comida, desculpe te incomodar agora, mas é que eu queria falar pra senhora isso.” (Estudante da educação básica paranaense, expondo por meio de mensagem de voz, sua angústia à educadora, diante da forma escola que está sendo imposta pelo governo de estado, em 17 de abril de 2020).

A mensagem que transcrevo descortina a ponta do iceberg do drama vivido por educandos e educandas de todo o país e suas famílias, expostos atualmente a uma aligeirada e oportunista organização de atividades escolares nas unidades da federação e municípios brasileiros. A maioria destas aulas e atividades educacionais, estão sendo disponibilizadas para serem assistidas e realizadas remotamente ou à distância, em canais de televisão, redes como youtube, plataformas educacionais, whatsapp, correio eletrônico e todo um conjunto de aparatos tecnológicos. O motivo: a pandemia do Coronavírus que obrigou à suspensão dos calendários escolares, em função do necessário distanciamento social, cujo objetivo é achatar a curva de contaminação, visando não implodir ou sobrecarregar o Sistema público de Saúde – o SUS.

Ao ouvir a mensagem, fui tomada por uma avalanche de sentimentos, em que se misturavam tristeza pelos muitos milhões de estudantes e profissionais da educação que estão sendo expostos a esta situação e, indignação, diante de governos e empresas de tecnologias educacionais a distância e outras que, aproveitando-se sorrateiramente da conjuntura, se colocam como única resposta à suspensão das aulas. O que fazer? Que respostas nós educadores e educadoras oferecemos aos nossos educandos e educandas? Importante destacar aqui, que não se trata de questionar as tecnologias ou o uso das mesmas nos processos educacionais, já amplamente utilizadas nas escolas públicas dos mais diferentes níveis de ensino.

O que estou questionando são as estratégias utilizadas pelos governos federal, estadual e municipal, juntamente com as empresas de educação, a fim de impor, de imediato, as aulas e atividades remotas, em um país onde 50% da população possui média de rendimento de R$ 820,00 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio/IBGE, 2019), ou seja, sobrevivem com menos de um salário mínimo, sendo que uma grande parcela atua em ocupações informais, que são as mais precarizadas. Com a atual pandemia, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (23/03/2020) a situação deste segmento da população piorou, pois se encontra em situação desesperadora, seja por terem tido suas ocupações interrompidas, seja por não conseguirem seguir as medidas mínimas de prevenção, ou por ter que dar conta de uma série de demandas colocadas para a sobrevivência, entre outros motivos que intensificam sua situação de vulnerabilidade social. Eis o elemento fundamental que deve ser observado por gestores e toda a sociedade brasileira, pois deste, desdobram-se muitos outros. Vou apenas elencar alguns para que possamos pensar e debater, desde a materialidade do nosso país, a fim de compreender a ligeireza e intencionalidades ocultas de tais imposições.

Não sou contra as medidas educacionais que devem ser encaminhadas pelos sistemas de ensino, o que evidencio neste breve expurgo, é que a rapidez e falta de debates com que as medidas vêm sendo tomadas tem uma lógica dada pelos processos de mercantilização e financeirização da educação brasileira, vista como um grande, potencial e promissor mercado. Empresas de vários países e conglomerados educacionais já estão atuando no país. Vejam a rapidez com que muitas secretarias estaduais e municipais de educação impuseram as aulas e atividades a distância! Como num passe de mágica apareceram plataformas educacionais, materiais (produtos) educacionais, redes de TV, companhias de telefonia e/ou operadoras de banda larga colocadas como as salvadoras do ano letivo. Nestas últimas semanas, gestores educacionais e empresas (Sim! Para o nosso desespero, empresas!) decidiram como os professores irão encaminhar aulas e também como os alunos de todo o país irão aprender os conhecimentos escolares. Empresas e gestores, aproveitando-se dessa fragilidade tomaram e estão tomando de assalto a educação pública brasileira!

O mais chocante é que, em sua maioria, apenas os sindicatos dos professores e pesquisadores da área educacional estão tentando se mobilizar e fazer oposição frente a tamanha falta de sensibilidade com os educandos e educandas, suas famílias, bem como ausência de respeito aos profissionais da educação. A educação, em todos os seus níveis e modalidades de ensino, é patrimônio do povo brasileiro. Desta forma, as medidas educacionais em uma sociedade democrática, sob um governo republicano, deveriam ser amplamente debatidas, antes de quaisquer decisões e encaminhamentos. Sobretudo, com aqueles diretamente envolvidos no processo, ou seja, educadores, educadoras, educandos, educandas e suas famílias, evitando assim, o risco de gerar ainda mais instabilidade social.

Nas linhas que seguem, apresento indagações oriundas de companheiros e companheiras de luta por uma educação pública e de qualidade emancipatória, além de questões que tenho problematizado, na esperança de podermos adensar nossos debates e reflexões onde todos possam ser tratados com respeito e dignidade.

Como trabalhar os processos de ensino e aprendizagem a distância com crianças dos anos iniciais do ensino fundamental, que estão construindo seus ritmos e formas de aprender? Como assumir ensino e atividades a distância diante da instabilidade social gerada junto aos 50% dos mais pobres no país, que sequer têm acesso a alimentos e moradias dignas? Que dirá acesso à rede de internet e todo o aparato tecnológico exigido? Diante desse lamentável cenário, há famílias se endividando para adquirir equipamentos para que seus filhos possam ter acesso às aulas e atividades!

Todos nós temos tempos, ritmos e modos de aprender distintos que uma vídeo aula e atividades a distância que, por conta de suas características, são incapazes de substituir a função desempenhada pelos educadoras e educadores que, pacientemente, respeitam a periodização do desenvolvimento humano. Tais ritmos, tempos e disponibilidades de aprender estão ameaçados pela instabilidade social gerada pelas amplas desigualdades do nosso país, agravados pela pandemia. Seremos insensíveis a isto?

Muitos educadores e educadoras são obrigados pelos administradores públicos a organizar e enviar aulas e estudos a distância, muitos têm consciência dos impactos negativos nas relações pedagógicas destas imposições. Somado a isso, usam seus equipamentos e redes de internet, sendo demandados diuturnamente pelos educandos com uma avalanche de dúvidas e questões. A ampliação do adoecimento já é uma realidade entre muitos, neste país cujo governo, ministros e setores mais conservadores estão dia a dia fortalecendo e incentivando atos de desrespeito e ataques a estes trabalhadores e trabalhadoras. Não é importante observar a qualidade de vida, a necessária dignidade destes lutadores e lutadoras?

Muitos estudantes, sobretudo os do ensino médio, em função da instabilidade econômica exacerbada pela pandemia precisam trabalhar para ajudar no sustento da casa e auxiliar nas atividades domésticas, que dobraram com as medidas de isolamento social. Quando terão tempo para se dedicar às aulas e atividades a distância? Vamos cooperar para que desistam da escola, de seus projetos de futuro? Mais uma vez vamos corroborar as críticas que indicam que nosso país não tem projeto para a juventude?

As famílias periferizadas e empobrecidas em situação de instabilidade das mais diversas ordens (econômica, social, emocional, para citar algumas), em geral, tem baixo nível de escolaridade, expressão de políticas públicas excludentes, sendo poucos os familiares que conseguem auxiliar os educandos e educandas em suas atividades, o que gera, uma série de problemáticas, expressas pela fala do educando que transcrevi. Vamos fazer vistas grossas e ouvidos moucos às dramáticas situações que as aulas e atividades à distância geraram e estão gerando?

Conforme hipótese dos administradores e dos setores empresariais da área educacional, é preciso somente fornecer aulas sem diálogo que desconsideram os tempos do aprender e do ensinar, atividades que não se sabe se os estudantes são capazes de realizar pois é assim que compreendem a complexa tarefa de ensinar e aprender. Desconsideram as condições materiais necessárias para que os processos de ensino e aprendizagem ocorram, elemento este fundamental que se impõe nas aulas presenciais. Como pode algo pensado nesta perspectiva tecnicista resultar em aprendizagem?

As escolas do campo, indígenas e quilombolas têm sido sistematicamente precarizadas e fechadas, as que resistem ainda continuam com os históricos desafios ligados à acessibilidade e dificuldade de comunicação, expressão da questão agrária e da ausência das políticas públicas, não apenas educacionais, mas também daquelas ligadas à reforma agrária, ao reconhecimento e demarcação das terras, titulação, soberania alimentar, entre outros. Os educandos e educandas, educadores e educadoras das escolas das áreas rurais, das ilhas, quilombolas, das terras indígenas, dos territórios de povos e comunidades tradicionais, foram esquecidos neste processo, como se não existissem. Até quando a invisibilização e o ocultamento irão perdurar? As aulas e atividades são somente para os da cidade que têm acesso às redes, como quer o capital?

As pessoas com deficiência as mais variadas também foram desconsideradas na elaboração das aulas e atividades propostas pelas empresas, muitas secretarias de educação estão sugerindo que os professores procurem adaptá-las, quando possível. Para as empresas educacionais, estas pessoas são consideradas uma minoria, assim, precisam se adaptar aos produtos do mercado. O ônus da lógica do mercado recairá como sempre sobre estes educadores e educandos?

A Educação de Jovens e Adultos (EJA), que surge das lutas pela inclusão e que está sofrendo processos de fragilização e/ou eliminação por ausência de políticas e programas públicos, em função das características dos grupos sociais que atende, também está seriamente comprometida. Um governo necrófilo, que não reconhece o direito de jovens, adultos e idosos periferizados já evidenciou que não tem compromisso algum com este segmento. Estão sendo convidados a se desfazer de seu sonho de acesso aos espaços e tempos da escola?

A substituição do trabalho vivo dos educadores e educadoras por trabalho morto, acondicionado nos pacotes tecnológicos e educacionais aponta para mais um ato, dentre muitos, de desrespeito aos profissionais da educação, estes que deveriam, juntamente com os mais variados segmentos sociais ser consultados sobre as estratégias educacionais que deveriam ser constituídas, tendo como base os saberes específicos que tais profissionais vão construindo no chão de cada escola deste país. Até quando, iremos fortalecer os pacotes, as empresas e os governantes que, irresponsavelmente, estão impondo uma educação esvaziada de humanidade?

Como fatalmente tem acontecido sob os auspícios do neoliberalismo na educação, empresas educacionais, redes de TV, de pacotes tecnológicos, de provedores de internet foram as primeiras beneficiadas no processo de isolamento social. A hydra capitalista se sobrepõe às fragilidades sociais, às mortes, à fome, à falta de política e programas públicos, às vidas que, teimosamente ousam se realizar no chão da escola. Quando chegarão os investimentos necessários em cada uma das escolas dos rincões deste país, para que todos possam ter acesso às tecnologias, a fim de fazer apropriações de forma crítica, autônoma, consciente e consistente? 

Uma outra materialidade que se impõe, pelo fato de sermos um país de dimensões continentais, é o desafio do cabeamento, sobretudo de áreas que não interessam ao capital e que, por isso, necessitam da atuação do Estado para a democratização digital. Bem sabe os que moram em municípios menores, distantes dos grandes centros, nos campos, em terras indígenas e quilombolas que ter acesso à rede de internet ainda é raridade. Como defender aulas e atividades a distância para estas áreas?

Para que tanta urgência na implementação de pacotes educacionais voltados às aulas e atividades a distância? O distanciamento social criou uma situação favorável para a implementação de laboratórios empresariais. Serão eles implementados em substituição aos professores, vistos pelo segmento empresarial como obstáculos, no pós pandemia?

São estas e tantas outras questões que emergem e que devemos debater quando olhamos e dialogamos com os territórios escolares, cada um diverso em sua organização e constituição, porque assim é a vida, absolutamente respeitada dentro das escolas. Sabemos que está em curso o recrudescimento de processos de mercantilização e financeirização da educação pública brasileira e que, em tempos de pandemia, as empresas estão tendo repasses da ordem de muitos milhões.

A escola pública muitas vezes, é a primeira política pública cotidiana, a qual o povo brasileiro tem acesso, o único lugar no qual muitas crianças acessam alimentação e convivem com adultos sem violência. Lugar esse, de encontros, aprendizagens, solidariedade e convivência cotidiana. Escola é lugar de vidas, extrapola o sentido mercadológico dos pacotes educacionais a que o capital quer nos submeter. Vamos resistir a mais este disparate contra as vidas, porque nós, O POVO BRASILEIRO, ousa viver em solidariedade.

Minha homenagem e mais profundo respeito aos educandos, educandas, educadores, educadoras das escolas públicas que estão lutando bravamente para que a escola das e pelas vidas se fortaleça. GOLPISTAS! NÃO PASSARÃO!

Que em todos os tempos e em todos os lugares, todos os seres sejam abençoados e protegidos! Namaskar!

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Comentários

  1. Um texto cheio de verdades que me representam enquanto professora, militante e cidadã. Suas palavras enchem de esperança m’inha… Gratidão, companheira!

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