UM DEBATE FRANCO SOBRE O PROGRAMA DE CIRO GOMES E SEUS ELEITORES

Antes de qualquer coisa preciso alertar que não considero Ciro Gomes o inimigo, mas um adversário em que tenho pontos em comum e outros não. Boa parte de vocês, meus amigos que aderiram ao Ciro, são ótimas pessoas, comprometidas nas lutas do povo brasileiro, por direitos e contra o golpe. Por todos tenho profundo respeito, até porque não vejo nenhum sujeito com ideias completamente reacionárias apoiando a candidatura do Ciro. Vejo gente do PSOL, independentes, do próprio PDT, enfim, pessoas progressistas. Todos, me parece, estão indo na onda do cirismo por causa do medo do anti-petismo e das pesquisas eleitorais que apontam a vitória certa de Ciro contra aquela coisa inominável.

Preciso lembrar antes de prosseguir que discordo, inclusive da análise de compas que militam ao meu lado, de que vocês, “ciristas”, são meros academicistas que estão na “bolha” da academia e da rede social e, portanto, distantes das campanhas etc. De mim vocês nunca vão ouvir acusações voluntaristas como essas. Elas pouco ajudam a compreender o cenário da conjuntura e reforçam uma falsa polarização entre nós, apesar de haver diferenças. Estas não são nem de longe o motivo pelo qual devemos distanciar-nos nesta eleição.

Também sou sabedor, como disse João Pedro Stédile, que nesta eleição as pessoas não estão muito preocupadas com o programa de governo dos candidatos. A polarização é tão grande que leva a disputa de dois projetos antagônicos. É uma eleição que exacerba a luta de classes, torna ela nua e crua na disputa de projetos.

Mesmo assim, insistirei em falar sobre o programa de Ciro Gomes que terminei de ler nesta semana. É um programa progressista, mas com ausências sérias de temas profundamente importantes para construção de um projeto popular para o Brasil. Para não me alongar muito vou comentar apenas alguns pontos que julgo serem problemáticos e progressistas no Programa:

1) Ausência de um debate sobre a democratização da mídia: mudar o Brasil hoje significa fazer uma reforma profunda nos meios de comunicação. Não é possível que meia dúzia de pessoas possam ser donas de redes de televisão, jornais, rádios etc. O país hoje é considerado, conforme demonstrou a pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia, como possuidor de alto grau de concentração o que o coloca em cenário mais grave de risco ao pluralismo. O programa de Ciro Gomes não traça nenhum panorama sobre o assunto e, o que é pior, em entrevistas o candidato chegou a insinuar que a melhor reforma da mídia é “trocar de canal”. Para enfrentar o golpismo que se instalou no Brasil desde o final da eleição de 2014 é mais do que urgente enfrentar a questão da regulação dos meios de comunicação.

2) Ausência da reforma agrária: sou sabedor de que a frente heterogênea neodesenvolvimentista que se formou no ciclo de governos petistas reunindo setores do movimento popular até a burguesia interna (não burguesia nacional – sobre o assunto consultar os textos de Armando Boito Junior), não conseguiu avançar no projeto de reforma agrária. No entanto, mais preocupante do que isso é perceber que no programa de Ciro não há uma linha sobre o assunto. A sua “estratégia nacional de desenvolvimento” não considera o problema da estrutura fundiária como um entrave que impede o mesmo. Isso envergonharia até as teses cepalinas (das quais não sou adepto integralmente) de que um projeto de modernização e de industrialização do país necessitaria tratar do acesso à terra e, portanto, da reforma agrária para formação do mercado interno, promoção da justiça social etc. Não tocar nesse assunto, quando os dados preliminares do Censo Agropecuário de 2017 mostram o crescimento da concentração fundiária no Brasil, não é tratar com seriedade uma estratégia nacional de desenvolvimento desde uma perspectiva popular.

3) posicionamento pouco claro em relação à revogação da reforma trabalhista: aqui cito o próprio programa em sua página 17 “revisão das atuais leis trabalhistas, de modo a adaptá-las às novas tendências do mercado de trabalho, alavancar o empreendedorismo, incentivar empresas e trabalhadores a realizar contratos de trabalho mais longos, estimular aumentos na produtividade e diminuir insegurança jurídica”. Não há nada claro no sentido de revogar a reforma trabalhista. Isso é absolutamente preocupante.

4) Pontos que acredito serem absolutamente progressistas no programa: presença da revogação da EC95; ideia de tributar progressivamente os mais ricos; manutenção da gratuidade das universidades e institutos federais; promoção de uma política de segurança inteligente sem o devaneio de armar a população; defesa das pautas de gênero, LGBT, racial, das pessoas com deficiência e das demandas da juventude; política externa de recuperação do controle nacional do recursos naturais estratégicos (petróleo, gás etc.) com a compra de todos os campos de petróleo brasileiro vendidos pelo governo Temer após a revogação da lei da partilha; política exterior de fortalecimento do Mercosul e BRICS.

5) Por fim, estes são pontos que me impedem de defender a candidatura Ciro Gomes como a saída para o Brasil. Votaria sem qualquer problema em Ciro para um eventual segundo turno e espero que o mesmo ocorra com os eleitores “ciristas” em relação ao Haddad. Temos dado muita atenção para as nossas diferenças e Ciro tem atacado duramente o PT com o intuito de angariar votos. Nas mídias comparece até que cogita pautar uma aproximação com Alckmin e Marina para ser a solução aparentemente “de fora” da polarização PT x Bozo. É preciso paciência e cautela ao dizer que Ciro estaria de fora do antipetismo. Isso não significa subestimar a força do antipetismo, mas apenas pontuar que num eventual segundo turno Ciro seria identificado como próximo ao PT e sem o apoio dos petistas teria sérios problemas no enfrentamento ao Bozo.

Sei que o texto foi longo e que não farei consenso algum com essa análise de conjuntura no campo progressista. Meu único alerta final é: no segundo turno, temos de estar juntos eleitores do Ciro! Sem tergiversar na defesa da candidatura Haddad se, ao que tudo indica, a mesma estiver no segundo turno. A unidade contra o fascismo é a bandeira da esperança.

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Fernando Mendonça Heck

Sobre Fernando Mendonça Heck

Professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Coordenador do Centro de Estudos sobre Técnica, Trabalho e Natureza (CETTRAN) e membro da Rede CEGeT de Pesquisadores. Militante da Consulta Popular.
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