Xenofobia tem raça, e o racismo tem etnia

Ato contra o racismo e xenofobia realizado na cidade de Maringá – PR , 08/11/2020.
Foto: Lucas Andrade Leandro.

Xenofobia tem raça, e o racismo tem etnia

Casos de xenofobia e racismo estiveram estampados nos noticiários recentes, e amplamente compartilhados nas redes sociais. No interior paranaense, na cidade de Maringá dois angolanos foram espancados por seguranças dentro uma loja de conveniência. As cenas chocantes dos vídeos divulgados[i] mostram os rapazes sendo arrastados desmaiados para fora do estabelecimento. A fotografia em tela traz a memória o período da escravidão, em que negros cativos eram semelhantemente tratados, arrastados, subjugados e esvaziados de humanidade pelo colonizador.

Esse episódio, ou a morte de mais um negro, desta vez no subsolo do estacionamento do supermercado Carrefour (mais recente notícia[ii]) revela elementos estruturais de nossa sociedade. Não se enquadram em ações preconceituosas isoladas, que escapam à regra, ou de um preconceito rudimentar quase exaurido.

O Professor e intelectual haitiano Frank Seguy (2014) adverte sobre conteúdos racistas vinculados ao ideário moderno, que estigmatiza os migrantes negros enquanto atrelados ao atraso, cidadãos de terceira categoria. Tal reflexão nos ajuda a compreender as palavras de um Policial Militar afastado, que defendeu a agressão dos angolanos em Maringá[iii]: “Esses marginais vieram(…) para encher o saco aqui”, “um bando de folgado”, “eles acham que podem fazer o que quiserem”.

Essas palavras permeadas de racismo e xenofobia encontram estada no astrólogo Olavo de Carvalho.[iv] Enquanto mentor da extrema direita neofacista brasileira, divulgou um vídeo, categorizando os haitianos como imigrantes vadios e usuários de drogas em contraposição aos japoneses e italianos que pretensamente trouxeram retidão e civilidade ao Brasil. Seu discurso resgata teses do branqueamento racial, eugênicas, espiritualistas, sem lastro na realidade concreta, mas que sobrevivem enquanto ideologia racista. Esse senhor não se constrange em classificar raças e etnias enquanto detentoras de valores específicos, classificando-os como bons ou maus imigrantes.

Um pouco mais jovem, porém não menos alinhado ao fétido ideário neofacista, Arthur do Val[v], youtuber e vereador da cidade de São Paulo, esbraveja com indignação a presença dos haitianos nas universidades Estaduais do Estado de São Paulo. Argumenta que o imposto pago pelos paulistas não devia suprir gastos dos estrangeiros nas universidades públicas. Não causa surpresa que sua indignação tenha endereço, cor, nacionalidade e etnia. Ele se refere aos imigrantes negros, oriundos de países economicamente dependentes, os quais não pertencem ao panteão iluminado dos países centrais. Ambos, o jovem liberal conservador e o astrólogo Senil de extrema direita, refugiam-se no racismo, justificando (para eles mesmos) a xenofobia.

Haitianos, angolanos, senegaleses, nigerianos, entre outras nacionalidades, sofrem xenofobia no Brasil por serem imigrantes negros. O mundo laboral para estes será mais pesado, insalubre, mal remunerado. A discrepância salarial é notável, os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do ano de 2019 revela que a média salarial nacional dos imigrantes de origem africana é de R$ 1.417,44, dos imigrantes oriundos da América Central e Caribe se reduz para R$ 1.160,68, enquanto os europeus e americanos do norte possuem média salarial acima dos R$ 8.000. O racismo institucional dotado de expedientes técnicos e burocráticos compromissado com a reprodução social do domínio do capital, inviabiliza a mobilidade social desses imigrantes. Como explicar a morosidade dos processos de validação dos diplomas dos imigrantes? Aqueles imigrantes oriundos dos países periféricos são olhados com desconfiança pela institucionalidade brasileira (também periférica), para eles são exigidos muitos papéis, testes, carimbos, portarias. Criam expedientes que impedem o reconhecimento formal das experiências e escolaridade acadêmica cursada nos países de origem. Já para outros grupos de migrantes, brancos, de classes abastadas e oriundos de países centrais o tratamento é outro. Dessa forma, atualiza-se por meio destes expedientes institucionais, práticas étnico-raciais, visando imobilizar os imigrantes nas ocupações mais precárias no mercado trabalho brasileiro.

O racismo perpassa múltiplas esferas (econômica, política, ideológica), pois não se restringe às agressões físicas. Manifesta-se também nas estratificações do mercado de trabalho, por meio das segmentações das atividades econômicas destinadas aos imigrantes negros. Vejamos as informações do mercado de trabalho formal de Maringá-PR, privilegiando os registros dos trabalhadores haitianos no ano de 2019. Os dados da RAIS por Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0), revela que dos 511 haitianos com registro formal de trabalho no município, 88 (17,22%) estiveram registrados em atividades vinculadas aos frigoríficos, especificamente na classe de abate de suínos, aves e outros pequenos animais. Em seguida, agruparam-se 60 (11,74%) na construção de edifícios e 40 (7,83%) nas lavanderias e tinturarias. Juntas, essas atividades econômicas concentraram 36,79% do total de trabalhadores haitianos inseridos no mercado de trabalho formal. A média Salarial nominal da atividade econômicas mencionadas acima giram entorno de R$ 1.344, 25 nas lavanderias e tinturarias, R$ 1.269,84 na construção de edifícios e R$ 1.135,77 no abate de suínos, aves e outros pequenos animais.

Esse quadro não tergiversa dos registros em escala nacional, demonstrando acentuada concentração nos registros dos trabalhadores haitianos na atividade de abate suínos, aves e pequenos animais. Em 2012, essa atividade contava com 267 haitianos. Após sete anos, esse número saltou para 14.231 registros, expressando um aumento de 5.229%. O que significa aproximadamente um a cada quatro haitianos empregado formalmente no mercado de trabalho nacional.

Percebemos pelos dados que as atividades econômicas vinculadas ao frigorífico concentram expressivo contingente de trabalhadores haitianos no Brasil. Contudo, os fatores determinantes da presença desses imigrantes nessas atividades não estão relacionados ao desejo destes de laborarem nos frigoríficos, nem de uma vocação natural para desossar frangos ou embalar miúdos. Essas vagas de trabalho apresentam altos índices de rotatividade, haja vista as péssimas condições de trabalho nas linhas de abate e processamento de carnes. Resultados de pesquisas desenvolvidas por Heck (2017) sinalizam rotinas de trabalho degradantes nos frigoríficos, onde os trabalhadores estão submetidos a jornadas extenuantes, marcadas pela intensidade e prolongamento do trabalho além dos limites físicos suportados.

São nesses territórios constituídos de condições degradantes estruturais que os imigrantes haitianos estão inseridos. Sob olhar do Capital, nenhuma preocupação ou espanto; os descendentes dos negros, que outrora estiveram cativos, serão recebidos de braços abertos, desde que suportem os flagelos do racismo constituído historicamente no bojo da sociedade brasileira.

Expedientes ideológicos corroboram no espraiamento da xenofobia racial. Urge avançarmos na compreensão do racismo enquanto relação social dotada de funcionalidade, atrelada à manutenção das desigualdades entre classes, nações, raças, gêneros. Esse empenho não pode se restringir apenas aos que sentem literalmente na pele, sob pena de fragmentarmos os sujeitos entorno das pautas específicas identitárias. É dever de todas e todas que encampam as lutas populares, nas esferas institucionais, nas Universidades, nas associações de imigrantes, nos coletivos e dentre outros espaços, fazer avançar a construção de uma sociabilidade sem exploração, logo sem racismo e xenofobia.

[i] Reportagem completa de Érica Aragão: https://www.cut.org.br/noticias/racismo-angolanos-agredidos-em-maringa-vao-a-justica-contra-tentativa-de-homicid-0bc3

 

[ii] Reportagem completa Redação Brasil de Fato: https://www.brasildefato.com.br/2020/11/20/sete-vezes-em-que-o-carrefour-atuou-com-descaso-e-violencia

 

[iii] Disponível na plataforma de vídeos youtube no canal de Edson Leonardo Pilatti: https://www.youtube.com/watch?v=HhmjYDMnxtc&feature=youtu.be&ab_channel=EdsonLeonardoPilatti

 

[iv] Disponível na plataforma de vídeos youtube: https://www.youtube.com/watch?v=TQVaUf7MrLU&t=1s&ab_channel=BrazilianGuy

 

[v] Disponível na plataforma de vídeos youtube: https://www.youtube.com/watch?v=9tKTbdUsG_o&t=86s&ab_channel=Mamaefalei

 

Referências Bibliográficas

 

SEGUY, F. A catástrofe de Janeiro de 2010, a “Internacional comunitária” e a recolonização do Haiti. 2014. 397f. Tese (Doutorado em Sociologia)- Unicamp, Campinas.

 

HECK, F. M. Degradação anunciada do trabalho formal na Sadia, em Toledo (PR). 2013. 217 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente. быстрые займы на карту онлайн займы

cantarutti

Sobre cantarutti

Mestrando em Geografia. Pesquisador vinculado ao Grupo de Estudos de Geografia do Trabalho (Ceget). Desenvolve pesquisas no âmbito da Geografia do Trabalho. Atualmente se dedica ao temário das migrações internacionais e trabalho.
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2 comentários em “Xenofobia tem raça, e o racismo tem etnia

  1. Parabéns pelo texto que nós trás uma excelente reflexão sobre esse tema que para muitos não existe ! Mas é real e cruel.

  2. Parabéns pelo texto, claro e objetivo além de descrever detalhadamentes algumas das disparidades reias da nossa globalização a qual estamos imersos e tentando sobreviver..

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